A vacina da brasilidade

Sexta, 22 de Junho de 2018.

A vacina da brasilidade

Em 1958, os municípios de Araxá e Poços de Caldas entraram em guerra. Não por qual ostentaria o título de melhor estância hidromineral do país, mas pelo privilégio e honra de ser a sede da preparação física e técnica da seleção brasileira para a Copa do Mundo na Suécia. Coube ao presidente da república, JK, que era mineiro e jeitoso, intervir e decretar um acordo de paz: a seleção ficaria quinze dias em Araxá, e quinze dias em Poços de Caldas. E durante um mês todos os nossos jogadores foram vacinados a favor da brasilidade. Do amor à pátria em cada gesto proferido dos alambrados, pedidos de autógrafos e incentivos nos treinamentos para cada soldado daquele que embarcaria para a Europa defender nossas c ores. E viajaram carregados de civismo até o aeroporto nos braços do seu povo. E chegaram a Estocolmo dispostos a vencer e trazer o caneco para o Brasil.
Já a seleção de 2018 embarcou evitando, de todas as formas, ter um contágio mais próximo com a tal brasilidade. Morando longe daqui a alguns anos, falando uma língua diferente da nossa, trataram de se afastar das suas subdesenvolvidas origens. Na Granja Comary, escolhida pelo clima europeu, colocaram trincheiras para que os torcedores não se aproximassem. Não teve gente no aeroporto para despedir deles porque, naquele domingo de greve, muitos vôos foram cancelados. E pelas estradas vazias só encontraram caminhoneiros lutando por um país que preferem desconhecer seus problemas. E embarcaram em um vôo fretado para ninguém que estivesse a bordo, mesmo aqueles de primeira classe com apartamentos em Londres, Paris, os lembrassem que um dia foram brasileiros.
Só havia uma esperança de lhes transmitir o vírus da brasilidade: através da namorada do seu maior jogador, que embarcaria para se juntar a delegação depois da primeira partida. Nova queridinha do Brasil, estrela global, carregaria para a Rússia a energia das pessoas que seguem seus passos em capítulos. Mas, infelizmente, ontem, quarta-feira, às vésperas de Brasil x Costa Rica, Bruna Marquezine partiu em um voo fretado para Moscou. Classe única. Preço do jatinho? Esquecem. Dinheiro, seja ele euro ou dólar, é que não falta para esta geração, e suas companheiras, que entra em campo amanhã apenas para cumprir tabela. Não para jogar, como deveriam, a partida das suas vidas.
Não vão colocar suas pernas nas divididas para poupá-las para a Champions League. E preservar suas canelas para o próximo mundial de clubes. Se perderem a Copa, vão se consolar nos resorts da Côte D”azur. Se a ganharem, vão para Paris, Roma, e talvez passem por aqui um dia a acenar para sua ex-gente. Eles, nossos meninos ricos, e suas Marquezines, sem a vacina do amor à camisa nas veias, que fazem questão de evitar, sobrevivem apenas no imaginário popular porque a Rede Globo faz apologia. E precisa arrecadar. Daí o Galvão grita dali, o Junior comenta de lá, mas é o Arnaldo que sentencia: a regra é clara, sem amor à camisa, e a vacina da brasilidade nas veias, nosso jogadores não vão trazer, como em 1958, a Copa do Mundo para casa. Simplesmente porque esta não é mais a casa deles.

Por José Roberto Lopes Padilha

Crédito da Foto: Reprodução

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