Anunciar o Evangelho e doar a própria vida (cf. 1Ts 2, 8).

Quarta, 20 de Setembro de 2017.

Estamos celebrando o mês da Bíblia, dedicado ao estudo da Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses, que tem como fundamento o anúncio do Evangelho e a doação da própria vida. Daí o tema: Para que n´Ele nossos povos tenham vida.

Este tema, por sua vez, foi inspirado no Documento de Aparecida que descreve nossa missão de ser Discípulos Missionários de Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida. Esta conexão entre discipulado e missionariedade quer recordar e inculcar a verdade de que o seguimento de Jesus implica necessariamente na missão, que por sua vez se nutre do discipulado. Na mesma perspectiva o lema: Anunciar o Evangelho e doar a própria vida (cf. 1Ts 2, 8).

Ser discípulo de Jesus Cristo é a nossa identidade cristã. Não somos um mero e grande grupo de pessoas religiosas; mas o que nos distingue é a fé no Mestre e a obediência ao seu Evangelho, onde declara: Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância (Jo 10,10). Logo, ser seus discípulos Para que n’Ele nossos povos tenham vida!

Um tema atualíssimo, provocador na conjuntura sócio-política-econômica-cultural em que absurdamente a vida de milhões e milhões de irmãos e irmãs é excluída, ferida e descartada. E no nosso Brasil num contexto em que os poderes autoritários e corruptos fazem leis contrarias ao povo trabalhador. Os cristãos hoje, como em Tessalônica, são chamados a ser defensores e promotores da vida para todos.

A escolha da 1ª Carta aos Tessalonicenses escolhida para esse mês de setembro foi providencial. É o documento mais antigo do Novo Testamento aonde transparece para nossa leitura orante das escriturasos desafios e as propostas de uma Igreja pela vida. Nela se encontram os temas mais fundamentais de nossa fé cristã.

Ali os fiéis de Tessalônica se deparam com as tribulações da vida presente e são alimentados pelas esperanças da vida futura, por Paulo, Silvano e Timóteo; que, por sua vez, lhes revelam seu afeto de discípulos missionários apaixonados pelo Evangelho a ponto de estarem dispostos a doar a própria vida, como uma mãe que cuida com ternura de seus filhos (1Ts 2,7). Dai, Anunciar o Evangelho e doar a própria vida (cf. 1Ts 2, 8).

Essa imagem da mãe acariciando o filho expressa assim, de forma impar, o amor e a doação da vida dos fundadores. Destaco a utilização feita nesta Carta dos sinônimos “nutriz” ou “ama”, que significa “aquela que nutre e protege” para exprimir a função materna de alimentar a criança.

Nessa metáfora se expressa a gestação da vida, a doação do alimento de quem amamenta, o afeto em forma de carinho, o apoio da formação de quem educa. Ao mesmo tempo utiliza a imagem do pai que educa os seus filhos, que estabelece a fonte e a manutenção da vida, com estimulo, no caso, a participar do Reino de Deus (1Ts 2,11). E nessas metáforas de contexto familiar fala do órfão, para exprimir a sua saudade da Igreja-família que gestaram (1Ts 2,17).

Recordemos ainda que essa visão da Igreja de Tessalônica como família se expressa no uso, por 19 vezes, da palavra “irmãos”. A irmandade se caracteriza por relacionamento horizontal de filiação do mesmo Pai e animação do mesmo Espírito Santo em Jesus Cristo. Não há justificativa na Igreja para relações de poder vertical como para essa dicotomia hierarquiológica clero/laicato. Isso vem reforçado com o fato de Paulo, Silvano e Timóteo, se dirigirem à Igreja sempre no plural, usando o “nós”. Eles que poderiam usar a autoridade para ordenar o que seria melhor para os fiéis, preferem a atitude materna, que inclui a disposição para doar, afetiva e efetivamente, a própria vida pela amada de Deus (1Ts 1,4), a comunidade que geraram.

Concluímos queessa carta não só exprime a realidade bem concreta daquela comunidade de vidas ameaçadas, mas é muito atual para a realidade de nossas comunidades de vidas ameaçadas. Como nos recorda o texto-base deste Mês da Bíblia, teríamos uma lista interminável de ameaças à vida humana a enfrentar. Os conflitos familiares que espalham divisões e abandonos.

A marginalidade gerando roubo e violência. A diferença étnica que produz preconceito e intolerância. A opção religiosa que vem provocando agressão e indiferença. O sistema financeiro que gera angustia e miséria. A administração política que se tornou fonte de fraude e corrupção. O sistema judiciário faz discriminação e injustiça... Anunciar o Evangelho e doar a própria vida!

Por Padre Medoro