Copa do Mundo e Nacionalismo: torcer para o time da CBF é ser patriota?

Sexta, 22 de Junho de 2018.

A Copa do Mundo produz experiências únicas para avaliarmos a relação entre esporte, política e nacionalismo. A contribuição dos esportes para a construção da ideia de nação é imensa. É preciso ter claro que as nações como entendemos hoje sob a forma de países em muitos casos são bem recentes. Pensando na América do Sul há 300 anos atrás não tínhamos Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile etc..
Uma questão sempre em aberto na nascente formação dos países era a produção da identificação coletiva- leia-se nacional- do conjunto dos cidadãos com essa entidade abstrata chamada Nação. O historiador britânico Eric Hobsbawm (1917-2012) mostra em seu livro NAÇÕES E NACIONALISMOS DESDE 1780 (Editora Paz e terra, 2008) que a produção dessa identificação nacional, sobretudo, nos países capitalistas centrais - um caminho seguido também pelos países de industrialização tardia- foi possível pela existência de meios de comunicação de massa, sobretudo, imprensa escrita (dependente da ampliação da escolarização para o conjunto da sociedade), cinema e rádio. Por esses meios, a produção da identificação nacional podia ser ampliada, padronizada, homogeneizada, tendo um alcance inédito até então.
Eric Hobsbawm destaca o papel dos esportes na produção dessa identificação nacional, sobretudo a partir dos anos 1920. Esse papel dos esportes era traduzido mediante sua transformação em espetáculo de massa, e por representar “... uma sucessão infindável de contendas, onde se digladiavam pessoas e times simbolizando Estado-nações, o que hoje faz parte da vida global” (p. 170). No período anterior à Primeira Guerra, afirma o historiador inglês, os esportes atraíam sobretudo as classes dominantes de muitos países. As competições esportivas internacionais, apesar de existirem, ainda eram tomadas como competições entre pessoas. A partir dos anos 1930 (ano da primeira copa do mundo de futebol no Uruguai) essas competições passaram a ser concebidas:

...com o objetivo de integrar os componentes nacionais dos Estados multinacionais. Eles simbolizavam a unidade desses Estados, assim como a rivalidade amistosa entre suas nações reforçava o sentimento de que todos pertenciam a uma unidade, pela institucionalização de disputas regulares, que proviam uma válvula de escape para as tensões grupais, as quais seriam dissipadas de modo seguro nas simbólicas pseudolutas (HOBSBAWM, p. 170-1).

Os esportes passaram a se tornar expressões dos países em embate não bélicos entre si, por via dos atletas. Isso ocorreu não somente no futebol. Assim:
... o que fez do esporte um meio único, em eficácia, para inculcar sentimentos nacionalistas, de todo modo só para homens, foi a facilidade com que até mesmo os menores indivíduos políticos ou públicos podiam se identificar como a nação, simbolizadas por jovens que se destacavam no que praticamente todo homem quer, ou uma vez na vida terá querido: ser bom naquilo que faz. A imaginária comunidade de milhões parece mais real na forma de um time de onze pessoas com nome. O indivíduo, mesmo aquele que apenas torce, torna-se o próprio símbolo da nação (HOBSBAWM, 2008, p. 171).
Essa identificação nacional é obra de diversas instituições. O sistema educacional faz isso constantemente, através do ensino dos hinos dos países, das cores nacionais, além da produção acrítica do culto aos símbolos nacionais. Por isso, que vimos essa semana diversas crianças pequenas sem nenhuma clareza das razões pintando rostos e usando faixas com cores verde e amarela. A produção da identificação nacional ocorre desde sempre. Com conseqüências as mais variadas.


Marcelo Paula de Melo é doutor em Serviço Social (UFRJ) e professor da EEFD-UFRJ

Por Marcelo Melo

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