Cuidado de longo prazo de pessoa com deficiência: nobreza da missão de amor incondicional

Sexta, 04 de Maio de 2018.

Todos temos uma relação de profundo amor para com nossas mães, por mais conflituosa a atmosfera psíquica dos lares que habitemos, muitas vezes incompreensíveis do ponto de vista objetivo, ela não compromete a essência do fraterno vínculo que nos conecta com nossas fontes genitoras. Do ponto de vista biológico, constituímos parte do corpo físico materno que amadurecido se deslocou, com propósitos de contribuição à evolução da humanidade, ou de perpetuação da espécie, compondo subsequentes núcleos familiares de entes dotados de características hereditárias similares ou adversas. Similaridades e adversidades a serem concebidas pelos membros do mesmo núcleo familiar com maturidade, humildade, sabedoria e compreensão de que estamos todos onde precisamos estar. Uma sábia prova que a divindade nos aplica para testar nossa sensibilidade e capacidade de demonstrar amor incondicional, a princípio para com aqueles com as mesmas raízes biológicas, portanto, com vínculos de carne e consanguinidade, para, mais adiante ou concomitantemente, avaliar essa mesma virtude dimensionada aos sofrimentos e necessidades dos demais seres humanos.
A proximidade do Dia das Mães é sempre ocasião propícia para refletirmos acerca da nobre missão das genitoras de pessoas com deficiência. Digo nobre, com ênfase na virtuosidade, desapego, dedicação, amor, imprescindíveis ao desempenho de tão grandiosa missão humana de mulher. Às vezes, essas mulheres-mães agem como se tivessem várias mãos, braços, pernas, diversos corpos físicos para dar conta das demandas e necessidades de cuidados de seus filhos com deficiência, sobretudo, daqueles com deficiência congênita. Agem assim, como forma de compensar fantasiosa culpa por haver gerado filho(a) (de)eficiente. Fantasia maldosamente implantada em suas mentes, tanto por influência do paradigma cultural vigente quanto pelo próprio núcleo familiar, inclusive, subjetiva ou diretamente induzida pelos seus parceiros, inconsequentes, insensíveis, omissos. Como toda regra tem exceção, tive o privilégio de conhecer exemplos de “pães”, pais de crianças, jovens e adultos com deficiência que se esmeravam no cuidado dos filhos, seres iluminados que merecem todo nosso respeito e admiração. Enfim, mulheres e homens que abriram mão da própria vida para viver a de seus filhos. Herdeiros do Reino dos Céus, por certo!
Muitas histórias reais de famílias que se envolvem no compartilhamento dos cuidados para com pessoas com deficiência congênita ou adquirida, nas quais alguns membros se apresentam disponíveis para ajudar, porém, como a necessidade de cuidados é sistemática e de longo prazo, muitas vezes, ao longo da vida, é natural que algumas baixas ocorram no decorrer do tempo. É aí que entra a importância das políticas públicas de apoio aos “pães”, mães e todas essas famílias, na forma de cuidado em rede, a exemplo da Rede de Cuidados da Pessoa com Deficiência, implantada pela Portaria nº 793, de 2012. Aquela que criou o Centro Especializado de Reabilitação – CER II, Planeta Vida, na gestão do ex-prefeito de Três Rios, e tantos serviços prestou à comunidade trirriense, desde a sua criação, em 2014. Destaque para o papel dos enfermeiros de reabilitação, terapeutas do cuidado, atuantes nos CERs, quanto ao gerenciamento dos processos de orientação aos familiares e cuidadores domiciliares, sobre planejamento e execução dos cuidados a serem prestados as pessoas com deficiência congênita ou adquirida, no longo prazo. Cuidados que as mantém com integralidade, segurança, saúde e qualidade de vida. Por mais dependentes que possam estar, cuidados que lhes confiram autonomia para decidir sobre rumos das suas próprias vidas. Um direito de cidadania que nunca lhes deve ser negado, sob quaisquer pretextos.

Por Dr. Willian Machado

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