Levante popular pacífico para combater as crueldades contra o povo

Quarta, 06 de Dezembro de 2017.


Iniciamos o Advento, tempo da Esperança no novo Ano Litúrgico da Igreja, com o nosso país vivendo um momento de incerteza e desesperança. O desemprego e a fome vem atingindo duramente o querido Povo de Deus. Mesmo enfrentando índices de rejeição inéditos e acuações contundentes envolvendo-o diretamente em esquemas criminosos o senhor Michel Temer continua promovendo “reformas” que não foram discutidas e muito menos aprovadas pela maioria da sociedade brasileira. Depois da entrega do pré-sal, para as empresas multinacionais e da aniquilação da legislação trabalhista existente desde Getúlio Vargas, ele agora quer obrigar os trabalhadores brasileiros a trabalhar até a morte.
Para isso alega um suposto déficit da previdência, o que foi totalmente desmentido em CPI do Senado Federal, sem contar as astronômicas dividas das grandes empresas e latifúndios e as anistias fiscais que vem sendo concedidas. Nas vésperas de cada votação dessas ele promove suntuosos banquetes no palácio e libera fortunas para os parlamentares votarem contra o Brasil e o nosso povo.
Mas é justamente nessa horas de dor e desesperança que os homens de Deus, os continuadores da fé de Jesus Cristo, devem assumir a defesa dos direitos dos mais humildes. Sobre a votação da chamada reforma da Previdência uma das vozes proféticas que se levantou de forma mais enfática foi a do Bispo da cidade paulista de Jales, D. Reginaldo Andrietta. Num artigo no site de sua diocese propõe um levante popular pacífico contra a reforma da previdência. Trata-se de uma declaração tão merecedora de ser conhecida pelos cristãos e demais cidadãos de boa vontade que optei por sua reprodução integral.
Proteção social sem lógica mercantil
O projeto de Reforma da Previdência Social será votado na Câmara dos Deputados tão logo se concluam as negociações do Executivo com o Legislativo, na forma de “compra de votos” por meio de cargos e emendas parlamentares. Esse projeto reduz direitos constitucionais e ameaça a vida de milhões de brasileiros, de modo especial os socialmente vulneráveis.
A Constituição de 1988, ainda em vigor, assegurou um sistema avançado de proteção social, conquistado a duras penas pela classe trabalhadora no bojo das lutas pela redemocratização do Brasil. A classe dominante jamais aceitou esse e outros avanços que, em última instância, apenas asseguram as bases para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática e justa.
O congelamento por 20 anos dos gastos com programas sociais e a recente reforma trabalhista ferem gravemente nossa “Constituição Cidadã”. Agora, a Proposta de Emenda Constitucional 287, que reforma a Previdência Social, se for aprovada, dificultará o acesso à aposentadoria de milhões de trabalhadores, especialmente rurais, reduzirá drasticamente o acesso ao Benefício de Prestação Continuada, que é o benefício assistencial ao idoso e à pessoa com deficiência, e cortará pela metade as pensões de viúvas e viúvos.
Os argumentos utilizados para essa reforma previdenciária são enganadores. O déficit alegado é falso. Essa constatação foi feita pela própria Comissão Parlamentar de Inquérito, constatando que a Previdência Social é, na realidade superavitária. Causa espanto um dos argumentos utilizados pelo Presidente da República para essa reforma, que o brasileiro daqui a pouco viverá 140 anos.
Nossa Lei Magna está sendo, assim, mutilada. Em consequência, os pobres, já crucificados, estão sendo ainda mais sacrificados com o desmonte descarado do sistema de proteção social. Instaura-se a barbárie. Perde-se a civilidade. O governo de plantão quer que o Estado adote a política de Pilatos. Este “lavou as mãos” na condenação de Jesus. Trata-se da política do “Estado Mínimo” que se exime de sua responsabilidade de proteger sobretudo os mais desvalidos.
O grau de respeito à dignidade humana de uma nação deve ser também medido por seu sistema de proteção social. A Doutrina Social da Igreja é clara na definição do papel do Estado de salvaguardar os direitos sobretudo dos mais pobres, garantindo, por exemplo, acesso a um sistema de proteção social que não esteja submetido à lógica mercantil. Afinal, proteção social deve ser comprada?
Um sinal muito particular de respeito humano é a proteção às pessoas idosas, a ser garantida, especialmente, por uma aposentadoria justa. Clamam aos céus o desprezo sofrido por elas. O Salmo 79,1 traduz, sabiamente, o clamor do idoso: “Não me rejeites na minha velhice; não me desampares quando forem acabando as minhas forças”. O livro de Levítico 19,32 exorta: “Levante-se diante de uma pessoa de cabelos brancos e honre o ancião…! ”
Que tal, então, levantarmo-nos em respeito às pessoas idosas de hoje e de amanhã? Que seja um “levante popular”, evidentemente pacífico. Que tal, por exemplo, distribuirmos ostensivamente, “santinhos” com nomes, fotos e partidos políticos dos legisladores que votarem a favor dessa reforma da previdência, denunciando-os em seus “currais eleitorais”? David venceu Golias com uma simples funda. A força dos fracos está nas ações simples e contundentes. Jales, 23 de novembro de 2017, Dom Reginaldo Andrietta,Bispo Diocesano de Jales


Por Padre Medoro

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