O menino da estação

Sábado, 06 de Janeiro de 2018.

Quando ainda era uma criança, um senhor ao me ver muito quieto na plataforma da estação ferroviária de Paraíba do Sul, aproximou –se de mim e perguntou: qual a razão dessa quietude, dessa tristeza revelada nesse seu rosto? Eu estava sentado num dos bancos e, lentamente elevei meu olhar para ele e nada respondi. Continuei meditativo .Ele não desistiu e acabou sentando ao meu lado e mudou a pergunta anterior:- “Está esperando alguém que vai chegar no próximo trem? Eu respondi que sempre na parte da tarde tinha o costume de ver o embarque e o desembarque de passageiros. O tal senhor me fez outra pergunta: Nota alguma diferença entre os que chegam e os que partem? Respondi que notava muita diferença. “Que diferença?- Perguntou ele.- Eu disse- os que chegam, antes de descerem do trem estão sorridentes olhando pelas janelas para as pessoas que ali estão a sua espera. Já os que partem, tem a tristeza no olhar e até choram na hora da partida.” E você, já veio aqui algumas vezes para se despedir ou para esperar alguém?” – Não, mas é como se eu estivesse esperando ou me despedindo de alguém. Já ouvi o apito das locomotivas, são alegres na chegada e tristes na partida. De qual apito você gosta mais? perguntou.- Dos dois. Respondi.” Como dos dois”? Se um é alegre e o outro é triste?” É que sempre aprendi muito vendo o lado alegre e triste da vida. Tenho aprendido muito com isto.
Ele, não perguntou mais nada e disse que continuaria a conversa num outro dia, pois estava na hora de trabalhar. Antes de sair tive uma surpresa, ao vê-lo do outro lado do pátio, uniformizado Ele era o chefe da estação, Quando notou que eu estava olhando, acenou para mim de maneira alegre. A impressão do cara chato, curioso ,naquele momento já não existia.
No dia seguinte, como de costume, lá estava eu assistindo a chegada e a partida dos trens. Um descarrilamento na localidade de Vieira Cortês, deixou retidos alguns trens no desvio e no pátio da estação de Paraíba do Sul. Um grande número de passageiros desceu em busca de água e lanches no conhecido “Bar do Ênio”, que se localizava do lado esquerdo do outro pátio. Normalmente ele vendia pastéis para os passageiros nas janelas dos trens. Espetava o garfo no pastel, recebia o dinheiro e entregava.. Nesse dia, não pôde nem sair de dentro do barzinho. Em pouco tempo vendeu uma boa parte do seu estoque, Fez café várias vezes e não deu vazão. Faturou legal. O saudoso Ênio é uma das boas lembranças daquela estação.
Como não poderia deixar de ser, a conversa do dia anterior com o chefe da estação, que havia sido interrompida, não demorou a ser reativada. Ao invés de dar continuidade as perguntas, contou várias passagens de sua infância, demonstrando uma boa dose de sabedoria em sua narrativa. De repente ele diz: vou lhe dizer uma coisa: Todos temos a semente da sabedoria, Elas são plantadas bem antes da velhice, e ás vezes bem antes da meia idade e da idade adulta É com sabedoria que devemos iniciar nossa caminhada, em cada passo que se dá, não se apressando em encurtar caminhos, há que se ter a tranquilidade para chegar com sucesso, sem atropelos. Não são as passadas largas e rápidas que nos levam a chegar com segurança ao destino e, sim, os pequenos passos na direção certa, pois para ser sábio precisamos do tempo ,não só cronológico, mas do tempo de observação na direção que estamos caminhando. para não perdermos de vista o nosso horizonte, o nosso objetivo. Finalizando disse: “Você é muito novo. Pode ser o dono do mundo”. Nunca fui dono do mundo, dono do mundo é Deus, mas, jamais esquecerei de ter conhecido uma pessoa tão simples, culta e sábia.
Vou ficando por aqui

Por Carlos Letra

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