A tragédia que se abateu sobre Três Rios com o infausto acontecimento do assassinato da estudante Jéssica Phillip Giusti, com grande cobertura da mídia nacional e parte da internacional, pareceu ser a gota que fez transbordar o volume insustentável do cálice amargo da questão da segurança pública do município.
Num paradoxal documentado, polarizando motivos de alto orgulho e de profunda apreensão, a unigênita localização geográfica do distrito-sede é, por sua própria natureza, cabal atestado cartográfico da sua lisonja e da sua vulnerabilidade. A decantada esquina do Brasil não é uma terra pacata. Nunca foi. E só será atenuada quando essa maculada pecha for tratada com as atenções de uma terapia específica socorrida por métodos e meios atuais. Negar a intranquilidade social trirriense é desacatar a nossa História.
A passagem da primeira rodovia brasileira pavimentada por Entre-Rios, em 1861 – a célebre Estrada União e Indústria – ao signo do discutível binômio crescimento e desenvolvimento, atraiu toda uma horda de malfeitores para cá, situação em muito agravada com a inauguração da ferrovia 6 anos depois. Historicamente muito difundida a diligência policial do início do século XX, quando o então subdelegado, o legendário tenente Ribas, quase vencido pela bandidagem que aterrorizava a histórica rodovia, em atitude extremada, numa única ação de segurança pública – coadjuvado por respeitáveis moradores voluntários – exterminou em nome da lei, na calada de uma única noite 33 (!) bandoleiros à espreita de vítimas às margens daquele caminho. Elevado na função, obteve altíssimos elogios dos superiores e eterno preito de gratidão do povo a quem jurara proteção. Sabe-se que por até os anos 40 reinou respeitada paz pela União e Indústria...Também é desse subdelegado o mérito da prisão do bandido Ventania, terror nacional, e que, para sua infelicidade, dera com os costados por nossas bandas. Que se relembre o Crime das Painas, da década de 30, triplo homicídio que também levou o nome de Entre-Rios à mídia internacional. E o que se relatar das, digamos, peripécias dos Caetano, da Vila Izabel, no passado recente dos anos 50? E ainda, com maior frescor da memória, a presença de meliantes de triste fama, cabeças a prêmio no país, de passagens forasteiras e alguns poucos com capturas pelo nosso valente aparelho policial. Essas assertivas poderão ser conferidas no Arquivo Histórico Municipal, na Casa de Cultura, orgulhosa criação, quando da nossa presença no Conselho Municipal de Cultura, o que até hoje vem afagar a nossa passagem pela cultura oficial do município, onde, inclusive, repousa toda a crônica policial da região a partir de 1901. A relíquia municipal de tamanha literatura policial e a nossa clarividência geográfica credenciam a nossa afirmação de que Três Rios é uma cidade de segurança vulnerável. Um rincão fadado a embarques e a desembarques, um crescente vai-e-vem humano, intensa população flutuante, rostos anônimos no nosso dia a dia.
Com profunda comoção unimo-nos à dor dos familiares da infortunada jovem. Acompanha-nos um histórico familiar da apreensão dos pais em relação aos filhos estudantes longe da segurança dos seus lares. Nossos pais passaram por esses angustiosos momentos ao ver-nos estudantes universitários fora da terra de berço, também tivemos nossos corações apertados quando nossos filhos buscaram o ensino superior em outras plagas. Noites indormidas, sobressaltos, preces constantes ao rogo da proteção divina.
Nossa terra apresenta seu natural crescimento. Que fique selado então um pacto a segurar vaidades. Que se entenda urgente uma trégua à douração da pílula. Que continuem chegando mais e mais viaturas policiais, que se instalem pórticos majestosos, que continue o aumento do efetivo da valorosa guarda municipal, que se coloquem mais e mais câmeras de monitoramento pela cidade, que se dirijam maiores atenções e exigências com as 24 horas do nosso terminal rodoviário. Que o desenvolvimento venha a coroar o atual crescimento. No entanto, do alto das nossas prerrogativas – de trirriense, de ativista, filha, mãe, avó, professora, do povo, apaixonada pela terra – que nos permitam ter voz potente nessa questão das providências irrealizadas que já passaram da hora. A fatura é de todos nós, do povo, das autoridades, das lideranças populares, e de insofismável obrigatório maior peso nos instituídos prefeito e vereadores. Cabeças- mor da terra.
Pelo coletivo grito de alerta, para que Três Rios volte a erguer a sua cabeça, tentando livrar-se da vergonha municipal, exigimos as por tanto tempo pedidas e esperadas providências necessárias...Muitos indefesos já tombaram pelo descaso, a menina estudante foi a última vítima. Pesarosamente, no entanto, foi a gota que veio fazer transbordar o volume insustentável do cálice amargo da nossa insegurança pública.
Mártir, ao ônus da ferocidade e da dor transformou-se em bandeira desfraldada, o que nos anima fazer protesto unissonante, severíssimo, de altíssima instância. Jéssica vive em todos nós!