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Publicado em 02/02/12
O lindo pierrô do Bambas

Já é um costume desta coluna, nos dias contíguos ao carnaval,  que dessa festa eu dedique um episódio acontecido nos nossos arredores. Já escrevi sobre vários cenários momescos –  todos eles de bons, tempestivos e históricos  registros  cravados  por  antigos cronistas da nossa imprensa interiorana e que muito me serviram de valiosas fontes. Hoje, no entanto, deposito aqui momentos que vivenciei durante os muitos anos da  minha intensa atividade no  departamento cultural do Grêmio Recreativo Escola de Samba Bambas do Ritmo, testemunho que ofereço a todos aqueles que intencionem um dia escrever uma história sobre o nosso carnaval de rua. Embora daqui deixe esta minha colaboração indiscriminada, peço vênia para também dedicar, nominalmente, essas minhas gradas memórias  ao meu jovem amigo e dedicado carnavalesco Fernando Ferreira pelo gostoso deleite com que ele sempre recebe minhas trintentonas reminiscências .

O ano era 1978 e o tema enredo foi o bicampeoníssimo Estrela da Vida Inteira  – sem falsa modéstia, de minha autoria. Tal entrecho tinha por mote quase toda a obra do poeta Manuel Bandeira dividido em suas distintas fases poéticas. Todo aquele que milita  diretivamente em uma escola de samba bem conhece insólitos níveis de exigências de um ou outro dos seus integrantes.Naquele ano a vermelho e branco viu-se mais uma vez  refém de um importante destaque de luxo,que ditava mil e uma impertinências  do seu espírito perfeccionista e garantia de reforço na nota 10 no quesito fantasia  –  mais uma magistral produção da figurinista Laís Helena. Aquele capricho$$o figurante representaria  o pierrô  desafortunado e quase morto de paixão, da fase poética “Libertinagem” de Bandeira. Além da suntuosidade da fantasia aquele exótico carnavalesco tivera dispendiosos dias e mais dias de severos ensaios de produção coreográfica, o que dava como certíssima uma vitoriosa  mise-en-scène ainda mais enriquecida com seus trejeitos peculiares.Esse lindo pierrô do Bambas  vinha à frente de  uma endiabrada ala de 58 modestos pierrôs envergando cetins prateados, fartos golões de tule vermelho carmim, bandolins à guisa de alegoria de mão e com coreografia submetida e fiel ao acordado com o luxuoso pierrô destaque.Todo aquele que milita diretamente em um desfile de escola de samba conhece também as angustiantes zebras de última hora que  sempre surgem de um inesperado. E na concentração bambina, entre outros imprevistos surgiu um muito grave, bizarro, contudo hoje relembrado como uma grande patuscada.

Eufórico com a excelente performance que levaria à avenida quis turbinar ainda mais a sua descontração e num bar a poucos passos da armação da escola resolveu tomar mais outras do que umas e  logo apresentou precário estado etílico. Já, ao esquenta da bateria, sambava entre tombos e tropeções já dando provas de  que sua participação alcoolizada comprometeria toda a apresentação, antevia um grande desastre.A ala dos pierrôs endiabrados protestou do pierrôzão embriagado à sua frente, colocaria em risco toda a sua movimentação e ameaçava não desfilar.Com a batata quente às mãos quase toda a  direção de harmonia tentava convencer o destaque bebum da sua incapacidade de desfilar ao que ele retrucava sob histéricos protestos e insistências ébrias.. Somente com a  sutileza da presença do líder comandante da vermelho e branco,o sempre festejado e respeitado Guará –  com todo o seu conhecidíssimo poder de persuasão –  impediu o desfile daquele lindo destaque de luxo...

Embora o histórico do desfile acusasse a presença do lindo pierrô desafortunado,sua ausência passou desapercebida do seleto corpo de jurados da Riotur e o Bambas do Ritmo,com méritos e muita alegria foi sagrado bicampeão daquele carnaval.Do então defenestrado integrante nunca mais se teve notícias por  aqui em nosso carnaval.O que se comentava em bochichos era que ele migrara para o grande desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro onde galgou fama e fazia muito sucesso,sempre se apresentado com destaques luxuosíssimos, e muitíssimo bem comportado, sobriamente bebendo somente água,muita água. A esse episódio chamo alegoricamente de pedagogia no samba, pois ao que tudo indica indo para o grande carnaval carioca aquele folião levou em sua bagagem a exemplar lição colhida da interiorana Bambas do Ritmo.

 

É historiadora.

ezite@oi.com.br

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