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Publicado em 17/07/12
Novela das nove

Hoje, curtindo um baratinho dos anestésicos e relaxantes que tomei para fazer uma endoscopia digestiva, com o superego distraído, ainda sonolento e com a cabeça um pouco aérea, decidi fazer uma crônica mais leve, sem tantas preocupações estéticas ou filosóficas. O assunto é a novela global das nove da noite. Não a assisto diariamente, porque na minha casa só tem antena da Sky e nela não passa a Globo, mas se estou em qualquer outro lugar, como em casas de amigos ou de minha mãe, acabo vendo e no Brasil, não tem como correr, de um jeito ou de outro, você sabe o que acontece na novela das nove, até para ter assunto em sala de espera de médico ou cabeleireiro. Também leio as notícias sobre a novela em jornais e, aliás, não se precisa assistir todos os capítulos de uma novela para conseguir acompanhá-la, pois a trama desenrola-se sempre bem devagar. Avenida Brasil, então, esta bastante arrastada.

A novela é cheia de mistérios e tem capítulos com sequências dignas de bons thrillers de cinemão americano, com cenas com cortes rápidos, as câmeras em ângulos inusitados e muitas das vezes bem próximas aos atores, e aquela trilha sonora de suspense para dar o climão. Tudo para fisgar e manter o telespectador ligado na tela. O processo é muito bem feito. O que me incomoda são os valores que estão sendo passados. Em Avenida Brasil até a heroína está cometendo as maiores barbaridades e lixando-se (a expressão veio a calhar) para a ética em nome de uma vingança.
 
É um tal de um querer passar a perna no outro, todo mundo querendo se dar bem a qualquer custo, que me pergunto: é este tipo de comportamento que o programa mais assistido da televisão nacional propagandeia e reforça a milhões de brasileiros? Não quero bancar o careta e acredito que uma obra de arte não tem necessariamente que educar, mas será que logo ali, na novela das nove, os autores não poderiam ter mais cuidado e pensar no que as ações de seus personagens irão influenciar nas atitudes de milhares de pessoas?
 
Se aquela em quem as pessoas devem torcer, a Rita-Nina, rouba, sai com alguns homens só por interesse, manipula, enfim, pinta e borda, e ainda assim é recompensada no final, será que isso não influencia no padrão de que muitas pessoas terão como certo e errado? Não é de hoje que as novelas deixaram de ter os papeis de heróis e vilões facilmente reconhecíveis e estereotipados. Lembro-me bem de como o Brasil inteiro torceu para os personagens de Wagner Moura e Camila Pitanga (que eram os vilões) algumas novelas atrás, tamanho o carisma e o talento dos dois atores na construção de seus papeis. Ali, os bandidos viraram os queridinhos.
 
Nas novelas das nove atuais, aprende-se que o dinheiro é o bem mais valioso do mundo e que vale tudo para consegui-lo. Ser rico deve ser o objetivo final e irrestrito de todo o ser humano, sua glória e salvação. Para isso, vale dar golpe de barriga, roubar a família, manipular outras pessoas, tudo o que for necessário. E percebo que este tipo de enredo é de um contraste brutal com os “Sitcoms” americanos, as séries de comédia de situações que possuem, para eles, a importância que as novelas têm para os brasileiros. Sou fã de algumas delas, como “Two and half men, “Friends” e “Big Bang Theory”.
 
Nos “Sitcoms” não existe muito essa de bonzinho ou vilão, geralmente a trama se ocupa em mostrar o dia a dia de um grupo restrito de pessoas (amigos ou família) e a graça está no texto, na forma bem humorada em que é retratado o universo dos personagens, com situações cômicas tiradas dos compromissos pessoais e sociais dos personagens, situações semelhantes a que todos nós vivemos. Por isso, nos identificamos tanto com os personagens e gargalhamos com seus pequenos deslizes e problemas, e nos satisfazemos com seus sonhos e aventuras.
 
Os melhores momentos da Avenida Brasil, na minha modesta opinião, são justamente quando entram em cena os núcleos cômicos da trama, como o do personagem Cadinho e suas três mulheres ou o da manicure Monalisa. Nestes momentos a trama fica leve e posso relaxar na poltrona e dar risadas. Mas quando aparecem novamente a Carminha, o Max, a Nina, até a linda da Suellen, a impressão que me dá é de que no Brasil só tem gente que não presta. Acho que farei igual minha avó, que há uns dois anos me disse ter parado de assistir as novelas das nove e que só continuava a assistir a das seis e a das sete. Quando indaguei o porquê, respondeu-me com precisão cirúrgica:
 
- Parei porque na novela nove é só maldade! – Sabedoria é isso aí. Viva minha avó!
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Formado em Publicidade e em Jornalismo pela UFF, em sua segunda passagem pelo Entre-Rios Jornal Vitor Mattos escreve crônicas dominicais desde maio de 2011.

vitorpmattos@yahoo.com.br
 

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