Mesmo que, segundo a lenda, sorva cada gota ali armazenada, Joel Santana precisa, para o bem do futebol, ser preservado em barris de carvalho. Não dá mais para assistir um carismático supercampeão ser exposto daquele jeito, obeso e claudicante, de semblante abatido à beira de um gramado sendo xingado de burro. Pelo que representa para todos nós, amantes do futebol, um estrategista do Divino, um malandro carioca que subestimou o terno e a fama para se manter humilde, vencedor, engraçado e suburbano, está na hora do papai Joel subir de posto. Ser promovido a supervisor, consultor, diretor de futebol, qualquer cargo que o preserve acima do treinador. Que, hoje, virou um precioso gado nelore rondando seu demarcado curral, aguardando os rumos de um leilão cujo lance maior é um pênalti perdido que não bateu. Uma bola na trave que decide seu destino, um erro fatal de conclusão de um Vagner Love que acelera o desamor com a nação e precede a sua demissão. Na Roma Antiga, Joel certamente seria senador, para dar conselho, transmitir experiência. Na era moderna, deveria ser um Google da bola para ser acessado quando um Negueba se apresentar, aos 19 anos, atrasado para um treinamento ao volante de uma BMW. Suas tiradas são impagáveis. Suas preleções para a boleirada, inimitáveis e imperdíveis. Poucas superfícies sabem de cor o evangelho da diversidade do futebol brasileiro como sua enigmática prancheta. Talvez interesse a FIFA, esta multinacional intolerável, corrupta e intrusa no quintal de cada nação, ao matar cada peculiaridade e globalizar a mesmice em prol da previsibilidade, eliminar quem representa a cara e a cultura do seu povo. Para tal, eliminou geraldinos, trancafiou em apartamentos com pacotes pay-per-view os arquibaldos, diminuiu os estádios e encareceu os ingressos para implantar um mesmo modelo , seco e pasteurizado, de se jogar futebol. Sendo assim, fica em casa Joel, descanse e aprecie, ao lado de sua família, o sentimento e orgulho do dever mais que cumprido. Quando o futebol vira as costas para ídolos como você e cede a cada norma ridícula da FIFA, ele caminha vigoroso financeiramente, conquista os africanos, asiáticos e o mundo árabe para viver muitos anos sem graça, sem dribles, sem nada. Um palco único, onde os artistas levarão seu papel decorado, e o imprevisível, o imponderável serão apenas lembranças do passado. Após sua completa extinção, emergirá, na boca de cada túnel, em cada estádio pelo mundo, uma figura robotizada, programada para difundir a habilidade escocesa, o plano aéreo inglês e um sistema tático fascinante, nos moldes do ferrolho suíço. As entrevistas, após os jogos, terão o humor francês e aos torcedores, perante tamanha falta de arte e sedução, só restará o direito de se portar como um hooligan.
E se a Patrícia Amorim acha que tal injustiça cura-se com Dorival, é porque, como nadadora, mostrou outra vez que não reconhece as dores do futebol.