50 Tons da Fazenda

Quarta, 15 de Maio de 2019.

50 Tons da Fazenda

O silêncio no GATVC era percebido na sua mais pura essência. E respeito. Celulares, contidos e emudecidos, nos tiraram por algum tempo do mundo real. E mesmo colado a uma concorrida pracinha, recebendo os cânticos de uma missa na matriz principal ao lado, fomos transportados para uma fazenda distante. Pensei na de Cantagalo, na Condessa do Rio Novo. E viajei em nossas origens antes que se abrissem as cortinas.
E quando Tom na Fazenda começou, o imaginário, magistralmente dirigido pelo ganhador do Prêmio Shell 2018, nos levou bem longe dali. Dava para ouvir tão próximos os uivos dos cães do mato. Assistir um bezerro nascer e o leite ser retirado de uma vaca na hora. Ao ser servido em uma caneca, dava para sentir seu gostinho puro e refrescante pelos ares.
Cenários, com areia, baldes de água fazendo-os pisar no barro, iluminação na medida certa, interpretações impecáveis e a sonorização do Paulinho, prata da casa, na altura e na tonalidade certa. No Dia das Mães, ganhamos de presente uma obra de arte em movimento. Que se exibia em um palco histórico, emoldurava as paredes saudosas de Violeta Silveira, Mário Barbosa, José Moacir Pereira e Dante Caldas Martins. E ecoava pelas caixas de som com a profundidade das mais belas óperas. Era impossível não nos envolver. Era impossível não nos emocionar.
O Cinema, quando resiste e não vira um templo sagrado, com seus efeitos especiais carregados de cultura alienígena, que nos trazem outros heróis, tem nos afastado da realidade. Eles, em Hollywood, fazem do homem o que querem. Lhes dão asas, poderes sobrenaturais, são vingadores e carregam poder e charme para cima da mulher amada em todos os tons de cinza.
Já o teatro, não, este coloca os personagens reais à sua frente. Não há obstáculos nem truques que os separem da plateia. Sem patrocínios ou Show do Intervalo, a arte passeia livre, ao vivo, admirada, sentida, cheirada e inspiradora por todos os cantos e minutos daquela sala.
Quando os espetáculos se encerraram, domingo à noite em Três Rios, os que deixaram o cinema foram para casa. Os vingadores não deixaram dúvidas no ar ou qualquer inimigo de pé. Era questão resolvida. Quanto a nós, quando deixamos o Tom na Fazenda, de tão profundas suas lições, seria mesmo uma covardia ir pra casa. Seria como despertar de um sonho bonito e acordar em meio ao Black Friday das Lojas Americanas.
E saímos todos à caça de uma mesinha de um bar, uma cumplicidade igualmente presente, testemunhas oculares, com quem retornaríamos devagarzinho pela estrada, copo a copo, repassando atos sobre cenas, das lições de uma família em suas diferentes realidades. Reencontrada, em suas dores, do asfalto festivo e do mato contido, vividas em uma fazenda distante dali.
O teatro nos faz pensar, refletir, interpretar um mundo que não cabe em uma tela. Mas que aproxima os homens dos seus semelhantes. E como é bom quando este semelhante que dirigiu esta premiada obra nasceu por aqui. Na antiga Fazenda Cantagalo. Que orgulho saber que Rodrigo Portella, o melhor diretor de teatro do país, é um dos nossos.

Por José Roberto Lopes Padilha

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