90 milhões sem ação

Sexta, 30 de Agosto de 2019.

90 milhões sem ação

“Noventa milhões em ação, avante Brasil, salve a seleção!” Esse refrão, cantando em prosa pelo regime militar, e jogado em verso por um futebol espetacular, mostrava que poderíamos, em 1970, encaixar noventa milhões de pessoas harmoniosamente assentadas em 8.516.000 quilômetros quadrados. Cercados de rios, florestas, e recursos hídricos e minerais de dar água na boca de todo o mundo. Oferecendo a todos condições iguais de saúde, oportunidades, dignidade e educação. Poderíamos ter nos tornado uma Suíça, a Noruega, quem sabe até a Dinamarca. Mas não fizemos o dever de casa.
De lá para cá, cada um tratou de cuidar do seu quintal, preservar seu latifúndio e dos seus amigos, e deixar crescer, desproporcionalmente, gente demais nos quintais vizinhos. Até hoje, e já se vão quase meio século, nenhuma política de controle de natalidade foi implantada no país. E já somos, segundo o IBGE, 210 milhões de brasileiros enfrentando filas para obter um emprego, vagas nas escolas públicas e um leito decente para cuidar da saúde.
Não é preciso sair de casa para se entender o Brasil. Abra a porta da sala e deixe entrar mais pessoas do que o seu salário possa sustentar. Do que seus quartos possam abrigar, sua cozinha conseguir alimentar. Se você não controlar o acesso, seu jardim vai começar a queimar. E quando o mundo quiser lhe ajudar, você irá recusar.
Será tamanha a desigualdade que você não pensará mais igual. Irá acordar, procurar um grupo de repórteres, pequeno que seja, e dizer uma série de bobagens. Afinal, você preside esta casa abarrotada de gente que queima sem parar. Inclusive o espaço no sofá que lhe dava o direito de sentar. E raciocinar.
O Brasil queima porque deixou um rastilho incontrolável de gente se alastrar. E agora, como apagar, com ou sem a ajuda do Macron, tamanho fogaréu social?

Por José Roberto Lopes Padilha

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