A arte de um povo que fica

Sexta, 01 de Março de 2019.

A arte de um povo que fica

Triste para nós, amantes da folia, era acordar às vésperas do carnaval e assistir o êxodo dos vizinhos, porta malas abarrotados, rumando para a região dos lagos. Mais do que isto, ver uma vocação natural da nossa gente, cultuada ao longo dos anos em barracões por Mestre Bina, Wanderley Rodrigues, Pádua, Mestre Amaro e Sueybe, entre tantos, escoar pelos ralos da indiferença.

Como uma cidade poderia virar as costas para nossas bordad eiras, costureiras, passistas, ritmistas, artistas plásticos como o Santos, o Trajano, o Cláudio Kereko, que se sucederam por várias gerações levando para as ruas a cultura maior do seu povo? Para os que insistiam permanecer, como eu, era a agonia de poucas piranhas seguindo seu bloco de resistência, no sábado, um só surdo batendo marchinhas de extrema unção.

Era como se Petrópolis, passivamente, assistisse lhes roubar o clima e fechar seus porta- malas com a Rua Teresa dentro. Angra dos Reis perder suas ilhas, São Lourenço suas águas, Caxias do Sul as suas uvas e Gramado visse derreter seus chocolates pelo cano de descargas da sua gente. Descaracterizada e vazia, nossa cidade assistia, enlutada, o Bloco dos Fantasmas desfilar para arquibancadas imaginárias, iluminadas pelas lembranças do passado, assistida por mascarados com o rosto coberto de saudosismo.

Hoje, quinta-feira, de uma cidade reinventada pela coragem dos seus homens públicos, como Celso Jacob, que trouxe os desfiles de volta, Vinícius Farah que os potencializou e Josimar Salles, que a mantém respirando apesar das dificuldades financeiras, que apostaram na alegria e felicidade como antídoto maior a todas as crises, soube, pelo Facebook, que os porta malas da folia, já abarrotados, estão invertendo seus caminhos.

Casas estão sendo alugadas por aqui, acreditem, por temporada pela primeira vez na vida. Hotéis lotados, restaurantes abastecidos, comércio aquecido, bares decorados de gente feliz e avenida engalanada para assistir o desfile dos nossos maiores artistas. Que souberam esperar e compuseram, em sonhos, sambas enredos na esperança de que sua arte novamente triunfaria um dia.

Não existe um enredo melhor para a Escola de Samba Unidos de Três Rios do que a oportunidade de reapresentar, na Avenida Condessa do Rio Novo, sua cultura maior através das suas escolas e blocos carnavalescos. Reeditar uma história que se alimenta de confetes, bebe serpentinas e espera, respeitosamente, que seus futuros governantes jamais voltem a subestimar esta arte genuína, os tornar de novo palhaços retirantes em busca de outros carnavais que jamais serão do tamanho, da grandeza e da tradição do nosso. Em nome da arte, avisem ao Rei Momo que, hoje, quinta-feira, somos uma feliz cidade que fica apara aplaudir de pé seus eternos artistas..

Por José Roberto Lopes Padilha

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