A filha do Asfalto Duro com a Dita Dura

Sábado, 01 de Dezembro de 2018.

A filha do Asfalto Duro com a Dita Dura

Ela tinha tudo para ser um novo cartão postal. Seria uma enorme ponte a ser erguida na Cidade Maravilhosa onde a natureza despejou suas maiores bênçãos. Tão bonita a cidade do Rio de Janeiro, que sua paisagem foi considerada patrimônio cultural da humanidade. Porém, ela foi erguida durante os anos de chumbo. E nenhum filhote de um asfalto duro com a ditadura ostentará qualquer brilho. Excetuando Guernica, poucas obras de arte foram produzidas ante angústias coletivas. E entre Rio de Janeiro e Niterói foi erguida a ponte mais triste deste mundo.
Dinheiro, durante o “milagre econômico” alcançado à custas de sufocar sonhos democráticos, é que não faltava. Mas o arquiteto, fã de Gilberto Gil e Caetano Veloso, viu seus ídolos serem “convidados” ao exílio. Tão sem inspiração, projetou não uma ponte para ligar comunidades, mas uma estrada erguida apenas por pilares rudimentares. O engenheiro, então, que lia O Pasquim e viu a barraca do Leblon onde comprava seu exemplar ser explodida, assustado e acuado, foi igualmente frio e calculista na sua concepção. E acabaram por assinar a obra mais sem brilho de suas vidas. Desde então, cinzenta e entristecida, jamais foi admirada, cultuada ou fotografada. Tem sido apenas ultrapassada. E quanto mais rápido passar por lá e esquecer 64, melhor.
De sua inauguração, guardo as lembranças de um lindo conversível a percorrê-la com duas bandeiras do nosso país afixadas nos retrovisores, e que levavam os cabelos brancos do Ministro Andreazza e a sisudez do Presidente Costa e Silva em direção a Niterói. E o Brasil dos que o amavam viram os que o deixaram foram poupados: um monumento sem arte que passou a ser o símbolo maior de um país que censurava toda e qualquer manifestação de sua arte.
Menos sorte tiveram os 21 trabalhadores que subiram aquelas vigas como se fossem sólidas. E tropeçaram no céu como se fossem bêbados. E flutuaram no ar como se fossem pássaros. E acabaram no mar feito pacotes flácidos. Todos morreram na construção de uma parte esquecível da nossa história.

 

Por José Roberto Lopes Padilha

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