A história apenas se repete de duas formas: como tragédia e como farsa! Perseguição ao pensamento crítico como prenúncio de uma ditadura!

Sexta, 03 de Agosto de 2018.

Notícias nada agradáveis têm sido veiculadas sobre perseguição política a docentes universitários e da educação básica. Casos se avolumam no país. Geralmente são montadas comissões internas de sindicância, inquéritos, aberturas de processos administrativos ou chamados à comparecimento às chefias em função de eventos, conferências, publicações e entrevistas.
Professores da Universidade Federal do ABC (UFABC) em São Paulo estão respondendo a uma comissão de Sindicância interna em função da presença no lançamento do livro “A verdade vencerá” (editora Boitempo, 2018) ocorrida na referida universidade em abril de 2018. Esse livro conta com longa entrevista do ex-presidente Lula da Silva. Os docentes Gilberto Maringoni, Giorgio Romano e Valter Pomar estão respondendo a processo a partir de denúncia anônima sobre realização do evento. A comissão realizou uma série de questionamentos aos docentes, pedindo respostas por escrito. Algumas desses questionamentos remetem diretamente à censura e tentam criminalizar o pensamento crítico na Universidade. Como exemplos vejamos:
8)-Durante o evento houve apologia ao crime?
9- Durante o evento ocorreram manifestações de apreço por parte de servidores em horário de serviço a favor de Lula e partidos de esquerda?
10- Durante o evento ocorreram manifestações de desapreço e contra o Presidente Temer e integrantes do poder judiciário-MP?.
Caso alguém tenha defendido que vivemos um processo de golpe de Estado, e que os processos do impeachment foram uma cortina de fumaça para esse golpe, os servidores seriam denunciados? Caso alguém defendesse, a luz das fartas provas, que o presidente golpista Michel Temer não possui condições morais de ocupar o cargo e que só escapou aos dois afastamentos por sórdidas negociatas com congresso nacional, seria denunciado?
Tal dimensão também ocorreu na EMBRAPA com a demissão do professor doutor Zander Navarro após criticas à promoção dos agrotóxicos. Sua demissão foi revertida na justiça.
Karl Marx, em 1852, escreveu um livro chamado “O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte”. Dentre seus riquíssimos ensinamentos nessa obra, uma questão sempre é lembrada na análise da política e das lutas em classes em diversos momentos e em diversos países. A formulação de Marx está presente já nas linhas iniciais do livro. Pensador alemão afirma, em uma intensa polêmica com George F. Hegel (1770-1832), que este
observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa

Com isso, Marx alertava que processos históricos só se repetem das duas formas possíveis. Primeiro como tragédia e depois como farsa. A tragédia está diretamente relacionada a piora considerável das condições de vida das maiorias sociais. Estamos falando da imensa massa trabalhadora do país. Já a segunda forma de repetição histórica- a FARSA- está presente cada vez que um corrupto, hipócrita, falso moralista, membro de um partido com diversos históricos e casos de corrupção sistêmica aparece como paladino da moral e da correção. A farsa está disponível na cretinice histórica, sob a forma de negação do óbvio em termos de injustiças históricas e opressões.
Parece que a chamada “contrarrevolução preventiva”- conceito de Florestan Fernandes para entender os processos em torno do golpe empresarial militar de 1964 no Brasil- voltam a tona em nosso tempo. Precisamos ver quem são seus parceiros em cada estado e em cada cidade; inclusive em Três Rios.

Marcelo Paula de Melo é doutor em Serviço Social (UFRJ) e professor da EEFD-UFRJ

Por Marcelo Melo

B01 - 728x90