A irmã mais sábia

Terça, 21 de Maio de 2019.

A irmã mais sábia

Tenho uma em casa, e ela se chama Jane. Um dos nomes mais bonitos concedidos a uma das mais belas mulheres que conheci. Geralmente são denominadas, nas famílias, como as irmãs mais velhas porque são quase sub mães. E são as mais sábias. Na tradicional família Miranda, em que as leis dominavam o universo do pai, e as plantas encantavam a vida da mãe, a primeira da turma se chama Terezinha.
Cresci admirando sua paixão pela cultura. Não houve uma só peça teatral, uma noite de autógrafos, uma exposição no Sesc ou no Olga Sola em que não estivesse presente. Era ela, Terezinha Ribeiro de Miranda, comparecer a um evento que este acabava de receber o selo ISO da cultura e qualidade. Daí o artista relaxava, o escritor via sua missão cumprida e o pintor a certeza que acabara de emoldurar uma obra de arte.
Domingo retrasado, estava no hall do GATVC aguardando o Tom na Fazenda. E comentava, diante da sua chegava, com minha esposa e com o Marcos Pinho que estava ao meu lado: “Agora as cortinas podem se abrir. Chegou quem mais a arte esperava!”. E, ontem, a irmã mais sábia perdeu seu irmão mais novo. A vida, tantas vezes encenada, emoldurada e estampada à sua frente, tratou de escrever seu capítulo mais triste. E dramático. Quanto esta inverte a lógica e nos leva os últimos da fila, por mais que a gente tente, não conseguimos explicar o tamanho da dor que se irradia à nossa volta. Nem Molière. Nem Shakespeare.
Mesmo de longe, quando gostaria de estar por aí, abraçando cinco amigas tão queridas, já lhe vejo, Terezinha, a sub mãe, cabelos lindos e grisalhos, a consolar a todos. Explicando o inexplicável, perdoando o insuportável. Os dramas a que assistiu no palco, e não foram poucos, lhe darão forças para tentar compreender o seu. E de todos os seus.
Então, minha amiga, nossa referência, nossos caminhos de prudência, nossa eterna militante cultural, receba e transmita a esta família que amamos todo o pesar que nos acomete. Paulo Jr., a quem carinhosamente chamava de o nosso Lulu Santos, só deixou, como todas vocês, coisas bonitas por aqui. E serão elas que permanecerão vivas entre nós.

Por José Roberto Lopes Padilha

Crédito da Foto: Reprodução

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