A irmandade reerguida

Terça, 01 de Outubro de 2019.

A irmandade reerguida

Nesta batalha em que nos envolvemos há dez meses para não perder, e não deixar sofrer, uma companhia tão iluminada, após Deus bater o martelo, pedimos nesta noite o VAR. Solicitamos a ELE que analisasse as imagens de corações tão vazios, de uma casa coberta de dores e saudades por todos os lados que se tornou a nossa desde o último sábado.
Tal pedido aconteceu num raro momento em que cochilei e sonhei. E foi um sonho cheio de esperança dEle levantar os braços, ir até o monitor e rever o que representou a Rossana na vida da gente.
Acontece. Deus não erra como o VAR ou como Sandro Beira Ritti. Sabe o que fez e o que desfez. E os que seus filhos imperfeitos como eu, no desespero, são capazes de recorrer para invalidar uma partida.
Só nos restou, já na vigília do domingo, agradecer a todos que empunharam as armas da solidariedade, ocuparam as trincheiras da compaixão e nos ajudaram a lutar contra um adversário tão cruel quanto o câncer.
E em meio a meus filhos e filhas impecáveis, Rosane e irmãos presentes de ambos os lados, médicos, enfermeiras, a Natália, amigos da Unimed, Crisany, a Jane, Dona Geraldina e Mara de tantas preces, uma guerreira incansável se colocou acima do amor por todos concedido. Entre tantas demonstrações de afeto e carinho, ninguém foi tão presente e dedicada como minha cunhada, a Veralucia.
Se a irmandade passava por um momento complicado devido a venda das casas e a distribuição das proles em apartamentos, passando cada um a receber mais pizza do delivery do que visitas, ela começava a virar sinônimo de confraria, associação com CNPJ no lugar da outrora união entre irmãos. Minha cunhada, durante nossa luta, reergueu este sentimento tão bonito. E o dignificou tal qual foi concebido.
Ela não perdeu uma só sessão de quimioterapia, em que sempre levava um prato de comida. E nenhuma internação, seja ela nos quartos e na UTI do nosso hospital, no Santa Tereza, em Petrópolis, e no Monte Sinai, em Juiz de Fora, deixou de ter a sua presença. Não houve uma só injeção, um soro aplicado em que deixasse de acompanhar e pedir explicações. Fez plantão, varou noites e dedicou seus dias a não deixar que sua irmã caçula tivesse uma só escara. Uma marca de soro, um arranhão da máscara de oxigênio sequer que ferisse sua pele suave e morena.
Como testemunha fragilizada desta história, não poderia deixar de vir ao nosso face e dizer: obrigado, Veralucia. De tão emocionante sua entrega, em determinado momento minhas filhas, que deram um outro banho de solidariedade, viraram uma para outra e disseram: você vai ser um dia Veralucia na minha vida se eu precisar como a Rossana?
Que seu exemplo se prolifere. E todos voltem a ser irmãos não apenas no sangue, na reunião para decidir a partilha, mas que saiam da toca e vão se abraçar antes da dor entrar com bola e tudo em seus corações.
• Na foto, Veralucia tentava, há 35 anos, nos enforcar momentos antes de pedir a mão da sua irmã em casamento.

Por José Roberto Lopes Padilha

B01 - 728x90