A mais longa viagem de um Milk Shake

Terça, 09 de Outubro de 2018.

A mais longa viagem de um Milk Shake

Como o Bob´s, que é de 1952, completei 66 anos em 2018, mais precisamente no dia 12 de Junho. Como os 15 anos, talvez 18, mais de meio século de vida já é motivo para ser comemorado, embora saibamos que, com exceção da data em si , das irresistíveis lembranças da torta de Morango da Tia Anastácia, nada se altera na vida da gente após cada aniversário. Ela, a nossa vida, continua tão imprevisível quanto o dia onze que passou e ainda mais enigmática que o dia treze que chegou e poucas novidades deixou. Servem, então, as datas consideradas históricas para olharmos pelo retrovisor e realizarmos uma retrospectiva, um balanço dos nossos erros e acertos. Dentre eles, no momento de suas aplicações e decisões, se postava o destino, implacável, que nos conduziu a caminhos que, se invertidos, conduziriam nossos aniversários para lugares completamente diferentes. Enquanto algumas decisões tomadas se perderam em importância, outras nos inquietam e incomodam até hoje. Como a que tomei aos 25 anos, no ano de 1977.
Era, naquela ocasião, jogador de futebol profissional, ponta esquerda do CR Flamengo. Um clube que tantos lutam para chegar e que eu, após cumprir um ano dos dois que tinha de contrato, com dez de profissão e recuperando-me de uma fratura no tornozelo direito, resolvi deixá-lo ao aceitar uma proposta financeiramente irrecusável feita por um usineiro, então presidente do Santa Cruz FC, de Recife. Para fazer parte de uma fantástica equipe treinada por Jouber Meira, depois por Evaristo Macedo, bicampeã pernambucana 77/78 e quinta colocada no Campeonato Brasileiro de 1979: Joel Mendes, Carlos Alberto Barbosa, Lula Pereira (Alfredo Santos), Levir Culpi (Paranhos) e Pedrinho; Givanildo, Wilson Carrasco, Betinho e eu; Luiz Fumanchú e Nunes.
Era uma equipe tão competente quanto a do Flamengo de Zico, Leandro e Junior que quase deu para esquecer, ao lado da maior torcida do nordeste, dos encantos da cidade do Rio de Janeiro. Lá, em Recife, havia praias tão bonitas, pessoas tanto quanto, mas a capital pernambucana, em 1977, não tinha uma só loja do Bob´s. Éramos, eu e meu irmão Flávio (Brasa), que para lá se mudou após defender o São Cristóvão FC, viciados em seu Ovomaltine de 500ml. Após cada treino, físico ou técnico, era ele que repunha nossas energias e nos obrigava a novos 200 abdominais e 150 flexões extras para ter direito, sem culpa e sem mexer na balança, a um outro duplo na noite seguinte. Nas belas noites de lua na praia de Boa Viagem, com tudo o que o nordeste oferecia com jangadas, redes, sucos naturais de Cajá e Graviola, forró ao vivo com galinha à cabidela com macaxeira às quintas feiras na Feirinha de Olinda, chegávamos a delirar de frente para o mar por um duplo crocante do Ovomaltine do Bob´s.
Até que surgiu o Coelhão em Recife. Coelhão era o apelido do nosso amigo trirriense Paulo da Silva Peralta Neto, que havia ficado no Rio, que dividia com a gente o apartamento em Copacabana e que, após seis meses da nossa partida, ganhara uma passagem de presente. Eu paguei a ida, o Flávio deu o bilhete de volta. Com uma condição: que nos levasse dentre outras lembranças, cartas da família, bilhetes das namoradas, contas a pagar esquecidas a maior das preciosidades: dois duplos Ovomaltines. Antes de seguir para o Galeão, passou pela Garcia Dávila, em Ipanema e mandou embrulhar para viagem. A viagem, por sua vez, descendo em Salvador, baldeando em Maceió e Aracajú, durou 6 horas.
A cena que se seguiu no desembarque foi para o resto da vida. Eu e meu irmão ansiosos à beira da mureta do Aeroporto dos Guararapes (não havia aquela sanfona de passageiros acoplada às aeronaves) e ele carregando pela pista, entre os dedos já oleosos e crocantes, amparado por uma aeromoça, o que restou de dois cobiçados Milk Shakes. Que não resistiram à pressurização, aos copos de papelão, ao sabor exposto e azedou.
Naquela noite de sexta-feira, seguimos insaciados com ele e o hospedamos no Edifício Transatlântico, onde morávamos, com duas definitivas certezas: a primeira, que aquilo sim é que é um amigo, todo melado e quase preso pela SUIPA por tráfico de bens perecíveis. E, segundo, que fora do Rio de Janeiro, em certas ocasiões e defendendo equipes especiais, você consegue substituir até o sagrado manto rubro-negro. Você não consegue mesmo é substituir o sabor e o fascínio de um Ovomaltine duplo crocante do Bob´s.

Por José Roberto Lopes Padilha

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