A Number One

Terça, 20 de Agosto de 2019.

A Number One

No domingo, dia 18, fiz 35 anos de casado. E acordei num lugar encantado. Cercado de espelhos, colorido na entrada por luzes de neon que brilhavam, estava de novo num Motel.
Quanto tempo!
Tomei susto ao levantar e me ver por todos os ângulos. Cadê os cabelos? E o tanquinho orgulho de atleta? E onde estava meu preparador físico que permitiu aquelas cartucheiras surgirem pelas laterais?

Do lado havia um controle. Quando o liguei, não estava na volta de apresentação narrada pelo Galvão. Nem era Globo Rural. A bezerra que gemia tinha um boi gemendo por cima. Não eram famosos. Os atributos exigidos para participar do programa era que fossem fartos e volumosos. E que gemessem durante o acasalamento.

Sobre a prateleira uma butique convidando ao prazer. Uísque com dois Red Bull acoplados sugerindo êxtases, amendoins fantasiando evoluções, bombons, envelopes de todos os sabores que desnudavam o fetiche de chupar balas com invólucros e tudo. O sabor de não deixar rastros ou bezerrinhos. Coisas de um prazer escondido. Apesar dos espelhos. Das luzes piscando anunciando que existia.

Quando olhei ao lado, percebi que estava sozinho. Minha companheira tinha ficado no Hospital Monte Sinai, em Juiz de Fora, se recuperando na companhia da irmã. Com o Íbis lotado, cansado, devo ter enxergado uma Três Rios bem distante, jogado a seta e entrado no Number One. Mesmo sem saber que poderia entrar lá sozinho.

Ao deixá-lo numa manhã fria e contornar suas garagens, notei que estavam mais desocupadas do que antigamente. Tinha fila de espera. Não foi difícil encontrar a razão. O jantar, à luz de velas que o precedia, o Japa entrega em casa. O cinema no escurinho, que dava o clima, foi trocado pelo Telecine. E a boate que nos envolvia foi ocupada por uma academia.

Trancafiados pelos deliverys, vi os anos passarem, filhos crescerem, o romantismo ser trocado por aplicativos nos celulares. Mesmo assim estava lá, intacta, a banheira de hidromassagem. Enfim, agora pouco importa. Naquela cama que dormi, em meio a um lençol coberto de pétalas, estava faltando ela. E a falta da minha Number One, 35 anos depois, ficou doendo em mim.

• Crônica dedicada a minha prima Glória Maria. Ainda no domingo, no São José, procurávamos um sinônimo para sua linda passagem entre nós. Alguém chegou e disse: Generosa. Ninguém procurou mais. Descanse em paz, querida.

Por José Roberto Lopes Padilha

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