A Onça “Doméstica”

Por Carlos Bernardo González Pecotche (Raumsol)

Quarta, 30 de Outubro de 2019.

  Passeava certa vez um ilustre filósofo em companhia de um jovem estudante, a quem instruía com singular empenho sobre o valor dasdefesas mentais, prevenindo-o sobre os diferentes disfarces queos pensamentos utilizam para ocultar suas intenções à boa-fé do homem. Com imagens claras, demonstrava-lhe quais são as características predominantes em muitos deles e o cuidado que é necessário ter para não se ver surpreendido com frequência por suas inesperadas patadas. Dizendo isso, observou que, apesar da clareza de suas palavras, não havia sido compreendido por seu interlocutor, ou que alguma dúvida existia na interpretação que ele havia dado a elas.
Em tais circunstâncias, e por uma daquelas coincidências que poucas vezes costumam acontecer, chegaram à casa de um amigo, comerciante de pássaros e de outros animais de diversos tipos, tais como gatos, cachorros, coelhos, raposas, onças etc. Entraram no estabelecimento e, depois de trocar algumas palavras com o dono, este os levou a percorrer seu pequeno zoológico. O fato de terem visto pássaros de todas as cores e preços, e toda uma coleção de pequenos animais, não é o que interessa; o importante no caso foi que, numdos pátios da loja, amarrada com uma forte corrente ao tronco de uma comprida e delgada palmeira, dava voltas uma onça parda de não menos que um metro de comprimento.
Ela havia chegado à loja fazia uns meses; era, então, um filhotinho inofensivo e formoso, que foi preciso criar na mamadeira. O dono do estabelecimento tomou por ele um tal carinho, que repetidas vezes recusou as ofertas dos compradores. Ele o mimava, acariciando-o com muita frequência, e se alguém sentia temor dele, dizia-lhe num tom confiado:– Não tenha medo; é um filhotinho.
Na verdade, parecia não ter notado quanto o animal havia crescido.
Nesse dia, a onça tinha caçado uma ratazana e a tinha devorado.
– É a primeira vez que faz isso – e, como se quisesse dar maior garantia a respeito da falta de ferocidade do animal, acrescentou: – Já é uma onça doméstica.
Os visitantes olhavam a onça de uma prudente distância, notando que, cada vez que ela passava diante deles, tentava aplicar uma patada na direção de seus pés, continuando depois com suas monótonas voltas em torno da palmeira.
Não transcorreu muito tempo, e seu dono, que fora buscar uma gaiola, passando próximo dela sentiu nas suas costas as garras da fera rasgando-lhe as roupas. Paletó, camisa e demais peças íntimas foram arrancadas como que por arte de magia.
Com a cara pálida, quase sem fôlego, conseguiu dizer:– Valha-me Deus!... Não se pode confiar nesses “bichos” sanguinários!...
Amanhã mesmo vou fazê-la sumir de minha casa! –e repetia o juramento de não querer ter mais feras em seu estabelecimento, mesmo que ostentassem, quando filhotes, a cara mais inofensiva.
– Você viu? – perguntou o filósofo a seu acompanhante, depois de transcorrida a cena. – Aí está uma imagem viva do que são certos pensamentos que, com grande solicitude, vão sendo amamentados na mente desde quando só têm força para existir. As consequências da imprevisão ou da imprudência de quem, como no caso daonça, lhes dá acolhida, os alimenta e lhes prodiga um afeto e uma confiança que podem lavrar sua própria desgraça, terão depois de ser lamentadas.
Será necessário explicar aqui, para melhor ilustração do leitor, quais são esses pensamentos que se parecem com a onça de nosso relato? Pois bem; que seja satisfeita a inquietude.
Tais pensamentos são aqueles que se introduzem na mente aparentando ser inofensivos. Um pensamento de jogo, alimentado com certo calor, termina arrastando seu dono à mesa da perdição.
Quando já foi acariciado com veemência, quando já tomou corpo, sobrevém a patada que chamam de acaso, e que não é outra coisas e não aquele mesmo pensamento aplicando seu golpe traidor ao confiado e crédulo amo. Como este, existem muitos outros pensamentos que o leitor poderá descobrir, tão logo percorra o rol de todos aqueles de índole mais ou menos similar ao que tomamos como exemplo.
Fica, agora, como moral da história, que não se deve dar cabida na mente a nenhum pensamento cuja natureza seja diferente ou alheia ao verdadeiro sentir, à razão e à sensatez, para não se ver mais tarde no perigo de ser agredido por semelhantes hóspedes mentais.
do livro Intermédio Logosófico, pág.157
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