A percepção de vivermos mais ou menos “deficientes”

Sábado, 18 de Maio de 2019.

Impressionou-me sobremaneira a entrevista da TV REAÇÃO, com a Secretária Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência em São Paulo, Célia Leão. Deputada Estadual por sete mandatos, ficou paraplégica aos 19 anos, após acidente automobilístico, em dia chuvoso, tendo edificado, trilhado e atuado com brilhantismo sua carreira de militante em prol do segmento. Desde o 1 de janeiro, 2019, a convite do governador João Doria, enfrenta novos desafios ao assumir titularidade da pasta estadual. Como acentua Célia, a secretaria é uma secretaria de atividades MEIO, enquanto as demais são voltadas para atividades FIM. Criada por Decreto Estadual e pautada nas mesmas diretrizes da nossa ex-Secretaria Municipal do Idoso e da Pessoa com Deficiência de Três Rios, porém, naquele contexto, assumida pela assembleia legislativa e a comunidade paulista como importante política de estado, persiste desempenhando ações transversais com as secretarias estaduais de educação, saúde, transporte, segurança pública, etc. Enquanto a nossa, extinta nos primeiros dias da atual gestão municipal, lamentavelmente, apenas nos deixou lembranças de como era importante para todos nós, somado ao que a Cidade obtinha em créditos humanitários que a distinguia inclusiva entre as demais.
O trabalho dessas secretarias é essencialmente transversal, pois devem interagir com as outras secretarias, acionando e sendo por elas acionadas para interceder no que envolva a parcela da população por ela representada. A referida secretaria não executa diretamente os programas das demais, mas oferece subsídios para que as demais executem, da melhor forma, o que tenha relação com as pessoas com deficiência. Dispõe de orçamento pequeno mesmo, porque não se trata de atividade fim, de mais a mais, inexistem rubricas específicas, porque suas ações envolvem questões transversais que afetam a complexidade da vida dessas pessoas. Vidas como as das demais, porém, mais vulneráveis ao descaso malicioso daqueles que insistem em nos conceber invisíveis.
Quem não tenha uma deficiência não deve se omitir sobre questões afetas a este segmento da sociedade, porque nenhum ser humano vivo está livre de ser acometido por doença, infecção, ou acidente que resulte numa ou outra deficiência. Nós, paraplégicos, por exemplo, só paramos de andar. Andar ou não andar, ouvir ou não ouvir, enxergar ou não, ter um intelecto mais ou menos capaz do que o da maioria, não importa, é apenas um detalhe. Ter uma deficiência não é mesmo a melhor coisa do mundo, ao contrário, pode ser um sofrimento quando não estamos preparados o suficiente para as enfrentar de cabeça erguida as adversidades da vida. Quando somos excluídos e não nos manifestamos indignados, a limitação que nos acomete torna-se exacerbada e deixa de ser apenas um detalhe para representar imenso abismo interior que nos apequena. A festa continua, e a festa é a vida. Temos todas as possibilidades de fazer tudo, se o mundo estiver mais adequado, as calçadas sem buracos, os prédios com elevadores, os banheiros, o posto de saúde, o hotel, o motel, plenamente acessíveis, as pessoas aptas a se comunicar e interagir adequadamente com surdos, cegos, tudo precisa estar em plenas condições de uso para todos. Assim, ficamos menos deficientes, menos incapazes, porque as nossas incapacidades são mais acentuadas na medida em que a sociedade nos negue o direito de sermos tratados iguais, independente das diferenças que nos distinguem.
Pode-se ter uma vida comum, a despeito de qualquer deficiência que nos tenha afetado, desde que a sociedade nos tranquilize com garantias de que a vida com qualidade e dignidade é de fato direito de todos. Cuidemos dos nossos pais, filhos, irmãos, amigos e demais pessoas que sejam do nosso convívio ou não, pois, independente da nossa vontade, estamos mais conectados que imaginamos. Unidos pela identidade de membros da Grande Família Humana Terrestre, conectados na sintonia da Energia Crística que a tudo permeia neste orbe. A vida com felicidade é fundamental para que todos possamos desempenhar com júbilo essa nossa curta passagem pela experiência corpórea. Não somos seres humanos finitos com ou sem deficiência, mas seres eternos, seres espirituais aqui manifestados pela vontade do Criador, para nos ajudarmos uns aos outros, expressando nossa solidariedade, fraternidade, compaixão, empatia, caridade e amor para com todos que compartilham conosco a jornada contemporânea da vida terrena. Hoje, alguns de nós vive e percebe significados da experiência de estar com deficiência, como no passado recente e longínquo outros pares a experimentaram. A roda da vida é cíclica e o amanhã uma incógnita, mas sempre colhemos o que plantamos. Será que nossa atual semeadura tem sido benéfica para os demais ou causa transtornos para eles? Pensemos nisso!
Perceber significa sentir na pele, pois que, verbo transitivo direto, implica no tomar consciência de, por meio dos sentidos; ou captar com a inteligência; compreender, o que de positivo e negativo devemos experimentar no dia a dia. Nesse sentido, o meio ambiente como cenário e palco que dispomos para desempenhar nossas tarefas e atividades do viver cotidiano, bem como os processos de interação humana nele presentes, podem contribuir ou dificultar nossas possibilidades para nos apresentarmos aptos e disponíveis ao exercício da plena cidadania.
Com certeza, a vida em cidades com condições de acessibilidade e mobilidade urbana deficitárias, desprovidas de planejamento urbano inclusivo, equânime, consoantes com o conceito de desenho universal, avoluma dificuldades de nos mostrarmos capazes como os demais. Nos nivelam por baixo e tentam nos vestir menores, fazendo-nos menos felizes, porque despertam em nós sentimento e percepção de excluídos, subjugados a categoria de cidadãos inferiores. Da mesma feita, a vida em cidades que nos discriminam e nos colocam à parte com base em critérios desumanos, onde faltam programas efetivos e sistemáticos de inclusão para pessoas com deficiência na saúde, educação, esportes, lazer, emprego e trabalho, como políticas prioritárias, é muito difícil e quase sem sentido para quem destoe dos “padrões de normalidade”. Ainda bem que temos certeza de que na vida tudo passa, as coisas boas e ruins passarão. Contar com gestores solidários, fraternos, empáticos, condolentes, não é questão de sorte, mas depende exclusivamente da nossa percepção prudente de não nos iludirmos com lobos, vestidos em peles de cordeiros.

Por Dr. Willian Machado

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