A posse das Artes

Sábado, 19 de Janeiro de 2019.

A posse das Artes

Tem dias em que estamos tristes. Faz parte, “é do game”, segundo meus netos, não dá para todo dia viver o que sentimos em fevereiro passado, corpo e alma colados aos alambrados da Marquês de Sapucaí, quando a Beija-Flor despontou na avenida e nos concedeu a maior alegria deste mundo. Porem, existem dias de dores em que os lenços não estarão a postos para saudar a arte do Neguinho da Beija-Flor, mas para enxugar lágrimas que correrão por um motivo triste qualquer. E em meio a tudo isto, de repente, você liga o rádio e lá vem o Erasmo amenizar toda a tristeza: “ Um dia gatinha manhosa eu prendo você no meu coração, quero ver então...” E se ela não cessar, pelo menos dará uma pausa para os sentimentos compartilharem o universo lírico de uma canção tão simples. E tão bonita.
De repente, uma obra de arte, seja qual for a forma pela qual ela se manifeste, continua a ser a melhor arma contra a posse de qualquer outra arma. Duvido que alguém cultive a vontade de machucar outro alguém após mergulhar no universo teatral de Rodrigo Portela. Sair de suas peças nos leva a procurar companhia, sentar num barzinho, pedir um vinho e divagar por diferentes interpretações que elas nos concedem. Ter a posse da arte é entrar na fila e buscar um ingresso para levar nossos pais ao Teatro Municipal para que reveja O Fantasma da Ópera. Buscar um lugar nos cinemas para se divertir com este novo gênio do humor, o Luiz Gustavo, e esperar o próximo show da Mart´nália para ter absoluta certeza que o samba não pode morrer. Porque ninguém no país irá se armar p ara eliminar uma das suas manifestações culturais mais legítimas.
Esqueçam a posse de armas. E vamos ao Museu de Arte Moderna levar nossos filhos para que eles tomem posse da arte. E não peçam revolveres de brinquedo em seus aniversários, mas pincéis e telas em que pintarão quadros tão bonitos capazes de desarmar os espíritos mais opressivos. A arte é a celebração da vida de um povo ordeiro, pacífico, que em sua absoluta maioria jamais concordou em se armar e ocupar suas encostas para se proteger de qualquer inimigo. Muito pelo contrário, pelo mar só recebeu, ao longo dos séculos, as bênçãos de Iemanjá, o Jongo, Xangô e a Capoeira. Pelos ares, vieram a etiqueta, a Mona Lisa, Brigite Bardot, os perfumes de Givanchi, e os trajes de Yves Saint Laurent. E pelo chão, quem rolou a bola foi Maradona, Messi, o Papa Francisco e a garra uruguaia. A única, aliás, que pegou nossa defesa desatenta. Todos foram bem vindos e só nos tornaram mais humanos. E mais felizes.
Uma pena que o empossado da vez, que ordenou a posse das armas e começa a ocultar a posse das artes, como das reservas indígenas, tenha passado a vida sendo acordado por uma só nota pela alvorada. E saído, em ordem unida, a procura de um inimigo que só habita dentro daqueles que não ouviram outras notas. Estas, Pixinguinha alcançou, Cartola as cantou e só alguns corações saíram machucados pela paixão, jamais pela opressão.

Por José Roberto Lopes Padilha

B01 - 728x90