A propósito da (des)mobilização na luta pela inclusão e cidadania idosos e pessoas com deficiência.

Sábado, 08 de Dezembro de 2018.

No Ocidente, o calendário gregoriano reserva para o quarto trimestre de cada ano datas emblemáticas em alusão aos direitos dos idosos e pessoas com deficiência, ocasiões tradicionalmente marcadas por eventos dedicados à reflexão sobre o movimento social organizado, disponibilidade de políticas públicas focadas na inclusão social, cidadania, saúde, reabilitação e qualidade de vida dessas pessoas. Começam em 1º de outubro, com o Dia Mundial do Idoso; passando ao dia 11 de outubro, quando se comemora o Dia do Deficiente Físico; seguido do 3 de dezembro, o Dia Internacional de Luta da Pessoa com Deficiência; fechando o calendário com chave de ouro no dia 5 de dezembro, data reservada à reflexão sobre mobilidade urbana comemorando o Dia da Acessibilidade.
Como se pode perceber, tratam-se de datas simbólicas pelas mensagens que carregam e chamam atenção da sociedade acerca de amplas perspectivas do porvir, descortinando horizontes inclusivos para que parcelas jovens e adultas da população se preparem para o inevitável. Porque o idoso de hoje foi o jovem ou o adulto de ontem, que a vida passa num piscar de olhos e que a negligência de agora pode trazer imensos sofrimentos futuros para todos, inclusive eles mesmos. Na mesma linha de raciocínio, visam deixar claro que ninguém em sã consciência procura ser acometido de alguma deficiência adquirida, e que nenhum de nós está livre de que uma ou outra intercorrência nos imponha limitações de natureza funcional, sensorial ou cognitiva. Destarte, urge nos empenharmos para instituir e implementar o conceito de desenho universal aplicado aos projetos de construções habitacionais, logradouros, ou ainda em qualquer espaço público comum que possa ser usufruído por toda a população, de forma a incluir a todos.
Considerando que todos estamos fadados ao envelhecimento, salvo que se parta precocemente para outros planos da nossa infinita existência, tanto quanto vulneráveis aos diversos tipos de deficiência adquirida por inúmeras razões, deveríamos despertar e consagrar apoio irrestrito aos setores da sociedade diretamente envolvidos com esta pauta. Além de nos apresentarmos solidários às demandas dessas pessoas, por questões de cunho fraternal, empático, solidário, contribuiríamos para a construção e ampliação das redes sociais de apoio em operação, minimizando as barreiras e enfrentamentos diários para acesso ao atendimento integral de suas necessidades. Em resumo, todos cuidaríamos de preparar condições de ambiência mais dignas possíveis, inclusive para nos acolher, caso necessário.
Versávamos do idealizado, mas, na realidade, o que figurou divisor de águas nos últimos anos foi o cuidado de alguns políticos candidatos no último pleito eleitoral, em suas aparições públicas, sendo auxiliados por intérpretes da Língua de Sinais Brasileira – LIBRAS, quando se dirigiam à população, numa demonstração de sintonia com princípios inclusivos, rompimento com o até então vigorante modelo de exclusão dos surdos. Na contramão dessa perspectiva de mudança paradigmática, não se perceberam manifestações objetivas dos Conselhos de Direitos dos Idosos, tampouco dos Conselhos de Direitos da Pessoa com Deficiência, em nível federal, estadual e municipal. O que muito nos preocupa, tendo em vista que, nada obstante as conquistas contabilizadas nas duas últimas décadas, notadamente, às custas dos conhecidos aguerridos desbravadores que há tempo se destacam nas lideranças desses segmentos sociais, ainda há muito caminho a percorrer. Além de canalizarmos esforços na criteriosa vigilância operacional dos programas implementados recentemente, esses sob constantes ameaças dos “jabutis sem noção”, ou apadrinhados que ocupam cargos e funções na administração pública, por mera acomodação política.
Fico estupefato com a pasmaceira das famílias de baixa renda, que deveriam lutar por garantias de cuidado e assistência integral dos seus entes idosos com fragilidades de natureza física, emocional e social, muitos mentalmente desgastados pela síndrome demencial, porque esperam que essas coisas lhes cheguem sem menor esforço, talvez, que caiam do Céu. Irrefutavelmente, milagres não contemplam ócio, e não se consumam sem que ações objetivas sejam desenvolvidas para propiciar ajuda no acolher todos os potenciais necessitados de atendimentos em unidades dia (Centros Dia), dando maiores condições aos demais familiares de trabalhar para sustento da casa. Maioria sequer tem interesse de conhecer a que se propõem os Conselhos de Direitos dos Idosos, mantendo-se a margem do próprio exercício de cidadania.
Não menos desapontado fico com familiares das pessoas com deficiência que, do mesmo jeito, sequer se importam que o Conselho de Direitos da Pessoa com Deficiência esteja agonizando na cidade onde residem, que ainda sobreviva por força da legislação municipal que o criou, mantido em estado crítico e conveniente para que verbas públicas não deixem de frequentar os cofres das prefeituras. Lamento que a colheita esteja sendo tão precária em termos de direitos de acesso aos serviços públicos para suprir as muitas necessidades de cuidados e assistência integral às pessoas com deficiência, porém, como a semeadura foi facultativa e não se aproveitou a fertilidade do solo, correspondeu às expectativas, o que resta é esperar pelos próximos calendários, por novos tempos de plantio.

Por Dr. Willian Machado

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