A retórica controversa da ministra Damara

Sábado, 12 de Janeiro de 2019.

Espera-se que a polêmica gerada em torno de um vídeo que começou a circular dia 9 de janeiro nas redes sociais, não se transforme em nova gafe da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damara Alves, pelas equivocadas afirmações que ela faz em relação à fé religiosa, ciência e educação. É preciso que a ministra Damara entenda que sua atual função pública de gestora federal requer cautela para que não sejam confundidos os fóruns onde ela se manifesta. Atuando porta-voz ministerial no cargo que ocupa, deve se limitar ao escopo da respectiva pasta, sem se arriscar adentrar em temasde cunho hermenêutico, sobretudo, cuidando para que suas convicções religiosas não sobreponham regras do Estado laico que serve, atualmente. A liberdade de culto é garantida pela nossa constituição e ninguém é obrigado a seguir o que não lhe toque o coração, considerando a fé religiosa atributo de sintonia com o interior de cada um de nós.
Como sua abordagem equivocada girou em torno das concepções criacionista e evolucionista da humanidade, basta uma consulta na ampla bibliografia científica para acrescentar que o conhecimento humano é na sua essência um esforço para resolver contradições, entre as representações do objeto e a realidade do mesmo. Assim sendo, o conhecimento, dependendo da forma pela qual se chega a essa representação, pode ser classificado de popular (senso comum), teológico, mítico, filosófico e científico. Nesse sentido, o conhecimento teológico é o conhecimento revelado pela fé divina ou crença religiosa. Não pode, por sua origem, ser confirmado ou negado. Depende da formação moral e das crenças de cada indivíduo. É fundamentado exclusivamente na fé humana, desprovido de método e alcançado através da crença na existência de entes divinos e superiores que controlam a Vida e o Universo. Resulta do acúmulo de revelações transmitidas oralmente ou por inscrições imutáveis e procura dar respostas às questões que não sejam inteligíveis às outras esferas conhecimento. Exemplos são os textos sagrados, tais como a Bíblia, o Alcorão (ou Corão, o livro sagrado do islamismo), as Escrituras de NitirenDaishonin (monge budista do Japão do século XIII que fundou o budismo Nitiren), entre outros. Portanto, não se limita as crenças evangélicas da ministra Damara, graças ao poder e misericórdia de Deus.
Por outro lado, a ciência que a ministra alega ter ocupado espaço nas escolas ao afirmar que "A igreja evangélica deixou a ciência sozinha, caminhar sozinha, e aí cientistas tomaram conta dessa área e nós nos afastamos", é o saber produzido através do raciocínio lógico associado à experimentação prática. Caracteriza-se por um conjunto de modelos de observação, identificação, descrição, investigação experimental e explanação teórica de fenômenos. O método científico, como instrumento da ciência, envolve técnicas exatas, objetivas e sistemáticas. Regras fixas para a formação de conceitos, para a condução de observações, para a realização de experimentos e para a validação de hipóteses explicativas.
Destarte, o objetivo básico da ciência não é o de descobrir verdades ou de se constituir como uma compreensão plena da realidade. Deseja fornecer um conhecimento provisório, que facilite a interação com o mundo, possibilitandoprevisões confiáveis sobre acontecimentos futuros e indicar mecanismos de controle que possibilitem uma intervenção sobre eles. O que implica na compreensão de que a ciência, ao contrário da religião, não produz e reproduz verdades absolutas, cabendo à escola primar por manter neutralidade em termos de doutrinas religiosas, contudo, não se abstendo de as apresentarem como objetos dos estudos comportamentais dos seus adeptos, em particular, no concernente às suas influências na cultura e organização da sociedade.
Como no esclarece Humberto Maturana, em sua obra “Formação Humana e Capacitação”, a tarefa da formação humana é o fundamento de todo o processo educativo, já que só se esta se completar é que a criança poderá viver como um ser socialmente responsável e livre, capaz de refletir sobre sua atividade e seu refletir, capaz de ver e corrigir seus erros, capaz de cooperar e possuir um comportamento ético. A escola, enquanto cenário de formação humana e capacitação, substitui o âmbito do viver cotidiano como um âmbito do viver no qual o sentido e o modo de conviver como membro de uma comunidade humana surge do viver como membro dela.
O que nos preocupa é a postura fundamentalista da ministra, contrária, tão-somente, aos pilares da concepção evolucionista de Charles Darwin. Preconceituosa por excelência, além de distorcida, porque calcada nas suas próprias interpretações bíblicas, divergentes de milhões de brasileiros adeptos de outras vertentes religiosas também cristãs. Com efeito, um representante de governo federal recém-empossado com forte jargão transformador do estabelecido deveria ser mais seletivo no que fala. Embora as afirmações da ministra tenham sido proferidas em 2013, sabe-se que dogmas religiosos são profundamente resistentes e impregnam nossos pensamentos, mesmo que deles tentemos nos desvencilhar. Lembremos que o fundamentalismo religioso tanto quanto outros paradigmas socialistas severamente combatidos pela nova equipe de governo podem gerar desgastes nada recomendáveis atualmente. Melhor se calar a levantar retóricas controversas.

Por Dr. Willian Machado

B01 - 728x90