A senzala transformou a opressão em arte

Sábado, 25 de Maio de 2019.

A senzala transformou a opressão em arte

Durante séculos, trataram de ocultar a sua história. Como não dominavam a escrita, era a oralidade dos senhores mais velhos, as receitas dos seu pajés tribais, que repassavam suas tradições. Para o resto do mundo era em vão. Para nós, então, meninos do outro lado do Atlântico, o gibi do Tarzan dizia que se comunicavam entre suas tribos pelo rufar dos tambores. E pelos berros da Chita. E nos livros que chegavam para as nossas escolas, os africanos não passavam de seres incivilizados. Que precisaram da presença do europeu colonizador para virar gente. E deixarem de ser macacos.
Então, trataram, portugueses, franceses, belgas e ingleses a escravizá-los. Retirar do seu rico solo todas as riquezas, trocar sua religião, ocultar sua cultura e torná-los produtos de exportação. Os africanos levaram séculos para se livras dos invasores. E muitos outros para alcançar sua independência. Portugal, por exemplo, só deixou o solo angolano na década de 70. Só então começaram a respirar. A reagir, alcançar a liberdade e mostrar o seu valor.
E o que nenhum historiador passou a negar, tenha escrito do lado vencido ou do lado vencedor, é que durante a prolongada resistência, exercida duramente dentro ou fora da senzala, eles desenvolveram uma arte única para a prática de todos os esportes. A capoeira, a dança, os rituais e as rotas de fuga pela sobrevivência produziram uma genialidade inalcançável pelos senhores da Casa Grande. Todos eles confortavelmente instalados e servidos por seus ancestrais.
No lugar de devolver as chibatadas, Usain Bolt procurou se tornar o mais rápido nas pistas. Mike Tyson o mais forte nos ringues e dominaram o basquete com tal competência que nem um branco ousou chegar perto de Michael Jordan, LeBron James, Kareen Abdul-Jabbar e Magic Johnson. Até no golfe, tão elitista, um menino negro Tiger Wood arrumou um jeito de deixar de carregar os tacos dos ricos e se tornar o melhor do mundo.
No futebol, então, a vingança foi um verdadeiro tapa de luvas de pelicas negras. O Brasil, o país que mais escravo recebeu, produziu um Rei, Pelé. E Portugal, um príncipe, Eusébio. E a França só ganhou duas Copas do Mundo porque recorreu a um Argelino, Zidane, e a outro guineano, Pogbá, um camaronês, Mbapée, que tornaram suas previsíveis jogadas belas e diferenciadas. E os times ingleses só vão a final da Champions League porque Totteham e Liverpool foram à suas antigas colônias buscar os talentos dos descendentes que aprisionou. E que a tantos durante séculos humilhou.
A África, definitivamente, não é apenas o berço da civilização. Ela se tornou, pela superação, criatividade e resistência à opressão, o continentes dos maiores atletas de todo o mundo.

Por José Roberto Lopes Padilha

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