A voz do samba é a voz que fica

Sexta, 04 de Janeiro de 2019.

A voz do samba é a voz que fica

O Bloco da Barão nasceu, há 42 anos, na Zona Sul trirriense. Mais precisamente na faixa de gaza da Rua Barão de Entre Rios, fincada entre o BHN do América e o Morumbi. E por dez anos, a partir do Réveillon de 1976, seus nobres moradores convidavam suas famílias, colocavam mesas nas calçadas e, após todas as ceias, esperavam a batuta do Mestre Amaro, este sim captado junto ao mundo do samba, para dar início aos seus desfiles. Assim ele nasceu, apoiado pela burguesia do comércio e da indústria e tocado pela arte dos seus sambistas. Até que completou dez anos e, ninguém me contou, eu assisti com estas penas, um caminhão parou em frente à Padaria Mimosa. E despejou, de sua enorme caçamba, diversos representantes das nossas escolas de samba. Vieram de todos os bairros, blocos e adentraram ceias brindando com seus tamborins copos de gelo, com maltes envelhecidos, e deixaram um definitivo recado: este bloco, a partir de hoje, não será mais exclusivo de vocês Ele agora é do povo. E naquela noite foi realizado um desfile inesquecível, com nobres e vassalos entrelaçados, quando completávamos dez anos de vida.
Dia 1º do ano seguinte, infelizmente, foi baixada uma resolução da monarquia. E o Bloco da Barão foi convidado a deixar a sua rua. Povo é bom, dá voto, mas quando ele entra numa ceia e mistura sua cerveja com um vinho chileno...Fora com o povo! Mesmo que ele tenha, por uma noite, harmonizado sua alegria. Cadenciado suas descompassadas estruturas. Daí ele foi abrigado no Posto Biliscão, concentrando em seu pátio, que tinha uma lanchonete ao lado, nossos ensaios. Coincidência ou não, dez anos depois a calibragem etílica anual da ala de compositores superou a impaciente calibragem diária do, então, Rei dos Pneus. E fomos convidados a procurar outro refúgio. Desde então, a família Comi Comi nos acolheu na Av. Alberto Lavinas. E por lá ficamos por 21 anos. Sem nunca ter deixado de sair, levando a imagem de Iemanjá a abrir todos os caminhos de fé e esperança para a cidade de Três Rios. Sempre abençoada diante do novo ano que surgia.
Este ano, foi a vez de um novo gestor, do Trailer Comi Comi, ter para com o mundo do samba azia e má digestão. Cansou de ver gente de todas as cores sair à procura, na batida da maior cultura de nossa cidade, de raros momentos de alegria e felicidade. E apagaram suas luzes, esconderam seus hambúrgueres e nos concederam a terceira ordem de despejo em 42 anos de luta e resistência.
Portas que fecham que o povo há de abrir tantas quanto for preciso. E o Bar dos Amigos, do Marcelo, da Ana e da Márcia, nos deram um novo abrigo. E por lá realizamos talvez o mais concorrido de todos os ensaios. E o mais bonito, segundo os especialistas, de todos os desfiles. Ah! o povo. Segundo o dicionário Michaelis, “são o conjunto de pessoas menos notáveis e menos privilegiadas de uma nação ou localidade. Plebe, ralé..(s.m)”. Valem muito em certos períodos, mas quando o ronco da cuíca aparece tentam liquidá-las como num Black Friday. Mas se depender do Bloco da Barão, 42 anos de samba e resistência, vão precisar repor o estoque. Por que ano que vem tem mais, pois o povo não quer ver o samba morrer, muito menos irá permitir o samba acabar.

 

Por José Roberto Lopes Padilha

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