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Acessibilidade e inclusão: imagem e representações de governos municipais.

Sábado, 05 de Dezembro de 2020.

Atualizado em Sexta, 04 de Dezembro de 2020 às 18:06 horas.

 

Por mais esdrúxula que possa parecer a analogia de um pôster, cuja tela contemple apenas um ponto de interrogação central, imaginariamente instalado na parede frontal da recepção para o gabinete de um prefeito municipal, seu caráter simbólico seria essencialmente democrático, embora inusual, porque constituiria livre espaço de manifestação para registro sobre como a sociedade observa e avalia o governo. Caso o avaliador fosse pessoa com deficiência e/ou com mobilidade reduzida, sua varredura observacional focaria aspectos e condições de acessibilidade do ambiente, mesmo desconhecendo os parâmetros antropométricos oficiais definidos na NBR 9050, a imagem a ser estampada no pôster corresponderia aos fatores impeditivos e barreiras cerceadoras do pleno direito de ir e vir dessas pessoas.
Uma vez detectados majoritariamente aspectos negativos a partir da realidade observada, o juízo de valor sobre o que se coloca fora do seu campo visual tenderia seguir a lógica da impressão inicial, reproduzida no conjunto dos demais ambientes da administração pública municipal, inclusive, abrindo margem para que se suspeitasse que muito do que se diz por ali não seja de fato o que se deva acreditar, confiar, particularmente em relação às formas de interação com as camadas mais vulneráveis da população. Nesse grupo incluiriam pessoas que perambulam pelas ruas, doentes, indígenas, famílias carentes, pessoas com algum tipo de deficiência, dependentes químicos, doentes mentais, transgêneros, negros, migrantes, entre outros segmentos da sociedade considerados invisíveis ou fora de foco nos projetos, programas, serviços e ações sistemáticas do executivo municipal, exceto quando surgem oportunidades para colocar em prática o jogo das aparências.
Após viver experiência de presidente do Conselho Municipal de Direitos da PcD, por dois mandatos, no período de 2001 à 2008, representante do segmento não-governamental diretoria da APAE-Três Rios, sem qualquer estrutura e local definido para reuniões, além de muita dificuldade do então prefeito em receber, assimilar e assumir que os tempos mudaram e que o paradigma inclusivo havia chegado com novas exigências no campo das relações humanas, percebi que era chegada hora de avançar um pouco mais. Naquela época, já havia decidido instalar o quadro imaginário na recepção do gabinete do prefeito, tendo ele permanecido imutável por anos afio. Para o período 2009/2016 foi convidado, nomeado e empossado titular da Secretaria Municipal do Idoso e da PcD de Três Rios, quando pudemos criar e implementar grandes programas de saúde, reabilitação, inclusão digital, inclusão no mercado de trabalho, acessibilidade, comunicação e educação inclusiva, atividades esportivas, recreativas e de lazer. Mudanças que transformaram a vida, resgataram a autoestima e trouxeram mais dignidade para milhares de idosos e pessoas com deficiência usuários dos seus programas.
Por outro lado, o pôster imaginário continuava na parede frontal do gabinete do executivo municipal, embora poucos dele se dessem conta, salvo os mais fraternos, empáticos, sensíveis e humanitários integrantes da equipe, que não compactuavam com qualquer tipo de segregação. Quantas vezes fui visto pelos visitantes sendo rebocado por quatro pessoas para conseguir alcançar o segundo piso da prefeitura, quando se constatava a flagrante expressão de constrangimento de muitos que aguardavam liberação de algum expediente, ou mesmo de atendimentos eletivos no primeiro escalão administrativo do governo. Constrangimentos desnecessários ante situação de tão fácil resolução, bastando tão-somente a instalação de plataforma vertical, como as já em funcionamento noutros ambientes da cidade. Contudo, o guardião da chave do cofre da prefeitura que gozava de absoluta credibilidade do executivo, definitivamente, não priorizava despesas com questões dessa natureza. Ainda não havia amadurecido na seara do desenvolvimento interior.Como a causa era maior e muitos benefícios trazia para grupos inteiros de pessoas historicamente excluídas, engolia em seco, e me encarregava do pleno direito de compor o pôster imaginário com figura representativa daquela densa atmosfera psíquica.
No período subsequente,2017/2020, cada vez mais obscura a imagem estampada no pôster se tornava, na medida em que se descortinava gradativo processo de deterioração dos programas exitosos implementados pela gestão anterior, além do desaparelhamento e desmobilização dos conselhos municipais de direitos e representação social.Como a esperança é chama indelével que renasce com força inimaginável, resta-nos aguardar até que o senso humanitário desperte e se manifeste em corações e mentes compassivos, porque tudo que virá, virá na base do que já foi concedido. Que o período 2021/2024 possa tornar os ordenadores de despesas do governo municipal mais abertos ao reconhecimento de que a pessoa com deficiência não precisa da pena dos outros, precisa sim de oportunidades para se desenvolver, como qualquer um. Afinal, a imagem do pôster precisa adquirir formas e contornos mais leves, claros, equânimes, sublimes.
 

Por Dr. Willian Machado