Antes Ela do que Ele

Quinta, 25 de Abril de 2019.

Antes Ela do que Ele

Não sou eu, pobre jornalista mortal, é a história quem nos conta: vivemos entre conquistas e tragédias. Nascimento e morte. Criação e extinção. Nem Darwin, e sua evolução natural das espécies, ousou estudar as razões do destino. Implacável nos descobrimentos e desaparecimentos, é ele quem decide quem fica e quem permanece. Para cada Peste Negra que assolou e dizimou metade da Europa, poupou da morte a outra metade porque faltaria comida. Eles colheram, naquele século sombrio, a pior safra de toda a sua história. E morreriam de fome, mas a peste os levou antes. E vieram as guerras, os mortos e sobreviventes, e ele, destino, ao gatilho dos fuzis, tsunamis, furacões e terremotos a definir o espaço que cabe ou não a cada um neste imenso latifúndio.
Há algumas semanas, em Paris, novamente uma tragédia seria anunciada ao mundo. Ou seria destruída um templo sagrado ou um ser humano sagrado perderia por lá a sua vida. A poucos quilômetros da Catedral de Notre-Dame, em um leito de hospital, convalescia uma majestade. O Rei Pelé era a outra trágica opção a ser anunciada à humanidade. E entre as duas obras de arte, uma fixa a outra concebida em movimento, pouparam o nosso Rei. E o fogo consumiu a catedral.
Dois dias depois, o Prefeito de Paris anunciou que em dois anos, no máximo, a reconstruiriam. Não será tão difícil, os vitrais são deles, e toda a arte e inspiração do berço da liberdade, da igualdade e fraternidade são obras suas admiradas e respeitadas por todo o mundo. Porém, se fosse escolhido o nosso Rei, como reconstruí-lo depois de Flamengo x Vasco? De São Paulo x Corinthians? Pois se Cabral nos descobriu, foi ele, Edson Arantes do Nascimento, quem fez o mundo nos descobrir em 1958, na Suécia. Até ele destruir defesas europeias e superar preconceitos contra a “inferioridade” da raça negra, apenas Jesse Owens havia feito isto no Atletismo. Mas o fez contra o tempo, Pelé fez contra um time inteiro de homens brancos e na presença do seu monarca. A partir daí, o Brasil colocou o mundo literalmente aos seus pés.
Um milhão de pessoas visitaram a Catedral de Notre-Dame ano passado. E poucos foram aqueles que foram a Santos visitar o Rei Pelé. Está certo que a Rede Globo e o Datena já tem gravado um vídeo com sua bonita história para jogar no ar. Mas só depois que ele morrer. Ou em caso dele pegar fogo. Mas já que ele foi poupado pelo destino, que tal dar a ele o respeito e a reverência que merece? Melhor, que sejam feitas todas as homenagens ainda em vida.
Mesmo sendo considerado o Atleta do Século, o que mais gols marcou na história do futebol, ser o único jogador a ser tricampeão mundial, Pelé, após receber alta na França, desembarcou no Galeão sem que uma só emissora estivesse presente. Todas estavam transmitindo a torre pegar fogo. Tragédias dão Ibope. Sobrevivência não vende jornal. Mas para os privilegiados, como eu, que o viram jogar, para os meus netos que acham que tudo aquilo que passou no “Pelé Eterno” são “fake jogadas”, ET 2, ou coisas do outro mundo, com todo respeito e consideração à opção recente do destino, antes Ela do que Ele.

Por Bruna Spada

B01 - 728x90