ÚLTIMAS NOTÍCIAS
ÚLTIMAS

Aprovação automática:

do corporativismo aos desastrosos indicadores de qualidade no ensino fundamental e básico no Brasil

Sábado, 24 de Outubro de 2020.

Atualizado em Sexta, 23 de Outubro de 2020 às 17:54 horas.

 

A resolução da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro, publicada  no Diário Oficial, de 14 de outubro de 2020, determinando que os alunos da rede estadual de ensino sejam aprovados automaticamente este ano, a despeito das notas que apresentarem no fim de 2020, causou polêmica na sociedade e imensa preocupação entre alguns docentes do ensino superior das instituições públicas e privadas. Assomados aos questionamentos dos pais e responsáveis pelo futuro dos alunos matriculados na rede estadual, testemunhas cônscias da fragilidade e inoperância das estratégias de ensino remoto adotadas pelas unidades escolares em tela, dada constatação da insuficiente adesão dos estudantes aos conteúdos de ensino e os previsíveis problemas básicos de compreensão e domínio de conhecimentos essenciais ao ensino universitário.  Na mesma perspectiva, a decisão também causou espanto e aumentou ainda mais a inquietação do empresariado do setor produtivo brasileiro, que vem enfrentando imensos desafios para contratarfuncionários com formação especializada para atuar na linha de frente de projetos e atividades que envolvam pesquisa e inovação tecnológica.

Como almejar avanços na área de inovação tecnológica face à vexatória posição do Brasil no ranking internacional de avaliação da qualidade do ensino fundamental e básico? A bem da verdade, mesmo entre estudantes egressos do ensino fundamental, muitos sequer conseguem realizar as quatro operações elementares de matemática, ou interpretar texto simples redigindo seu resumo de forma clara, consoante com raciocínio lógico e embasado nas regras ortográficas de português. O que por si só diagnostica o quão deficitário se evidencia o abismo a ser superado pela educação em nosso país, e a imperícia subjacente à decisão de “empurrar” os alunos com as tais aprovações automáticas.

O desenvolvimento do nosso país, tendo em vista a redução da desigualdade social, como Nação apta para competir com a produção industrial e tecnológica dos países desenvolvidos, carece fundamentalmente de reformas no nosso sistema educacional. A continuar preparando as novas gerações de brasileiros apenas com perfil de analfabetos funcionais, haveremos de condenar a nossa juventude ao futuro exercício de funções elementares nas empresas do nosso parque industrial, serviços, e demais setores da economia.  

Segundo palavras do secretário estadual de educação, em entrevista concedida à órgão da imprensa: “Em um ano atípico como esse, não há possibilidade de reprovação. Em 2021, com o retorno total das aulas presenciais, será feito um diagnóstico com cada aluno, para que seja possível estabelecer um itinerário pedagógico e corrigir o déficit nas disciplinas principais”. Que o ano foi atípico todos reconhecemos, contudo, não há dúvida que houve tempo suficiente para o planejamento, execução e avaliação de estratégias pedagógicas adequadas à modalidade de ensino remoto, mas impossibilitadas por questões da falta de equipamentos e recursos da tecnologia da informação, tanto nas escolas da rede quanto disponíveis para os estudantes acessarem fora delas.

Sem investimentos em materiais, equipamentos e recursos tecnológicos de comunicação e informação, além da capacitação sistemática dos professores, não há como fazer diagnóstico ou estabelecer itinerário pedagógico capaz de corrigir o déficit de cada aluno nas disciplinas da grade curricular do ensino. É subestimar por demais a percepção, capacidade de análise e avaliação construtiva da sociedade, não é fato? Esse será mais um gargalo na forma de lixo jogado para baixo do tapete, fruto da incompetência administrativa dos nossos gestores públicos. Ademais, na contramão dos movimentos corporativistas, seria oportuno questionar a falta de critérios meritocráticos para avaliação do desempenho dos professores da rede pública de ensino, tanto quanto reavaliar a que servemas nada democráticas e excessivamente privilegiadasrelações de trabalhocom o servidor público, consideradas regras de contratação dos demais trabalhadores no Brasil. É preciso que tenhamos maturidade, sabedoria e consciência cidadã para tratar de forma sériaos nossos gargalos, mesmo que a contragosto das corporações.

 

 

Por Dr. Willian Machado