As dores da imperfeição

Sexta, 13 de Setembro de 2019.

As dores da imperfeição

Certa feita, tinha na agenda dois velórios a cumprir. Conheço muitos amigos que se recusam a ir até lá sob a alegação de que “gostariam de ficar com sua bela imagem de vida”. Claro, jamais abriram mão de um churrasco na casa do falecido, cheio de carnes e linguiças. Carnes mortas, abatidas, levadas à grelha pelos que ainda estavam cheio de vida. Depois, só encontrariam água na capela. E um cafezinho.
No primeiro, realizado no salão de uma Igreja, a filha se despedia do pai aos gritos. Desesperada, aos prantos tentava trazê-lo pelos braços de volta. Confesso que sai de lá um pouco assustado. Já no outro, realizado no Centro Espírita Fé e Esperança, a viúva, com unhas pintadas e serena toda vida, invertia os papéis e se postava na porta a nos consolar. Tão espiritualizada, Marilza Seixas ainda comentou baixinho: se o Zé Carlos não me vê assim, toda bonita, vai subir chateado. Não era de um corpo inerte que se despedia. Era um ato de respeito a quem cumprira apenas uma etapa de tantas vidas.
Na saída, comentei com a Rossana: está é a religião que quero para mim. Desde então, tenho participado dos cultos semanais e das comemorações dos anuários espíritas. Em uma delas, foi encenada uma peça sobre a vida de Rita Cerqueira, a Mãe Ritinha. Em uma cena, ela pega pelos braços sua neta e sai a percorrer os cabarés trirrienses distribuindo conselhos e preservativos. Minha esposa me cutucou e disse: aquela menina ali é a sua mãe. Me lembrava que era minha bisavó quem fazia o papel principal.
Diante de tamanho legado, não era justo deixar a UTI, ontem, como a deixei, na visita concedida à mulher amada. Inconformado, com vontade de gritar, era este meu estado ao deixar minha heróica parceira carregada de eletrodos, cânulas, soros e noradrenalinas sobre um leito pra lá de monitorado. A imperfeição, a dependência da presença daquela luz que entrou em nossas vidas para nos amparar, e proteger nossos caminhos, nos levou a recusar o convite da minha filha, a Priscila, para ir mais tarde ao culto e orar por ela. E por todos nós.
Estressado e inconformado, preferi ir caminhar. E saí pela Avenida Beira Rio a cuidar da saúde do meu corpo deixando minha alma totalmente à deriva. Me perdoe Carlos Massi, que ao GEFE preside, ao Dimas, de tantas palestras e sabedoria, mas não estou no ponto. Ainda egoísta, não passo do bisneto de uma santa que precisa voltar muitos anos, de muitas vidas, para respeitar a decisão de Deus sobre quem vai e quem fica.

Por José Roberto Lopes Padilha

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