As sutilezas de um entardecer

Sábado, 07 de Setembro de 2019.

As sutilezas de um entardecer

Envelhecer é um processo tão sutil quanto você caminhar ao fim da tarde e, de olhos abertos, sem piscar, tentar alcançar o exato momento em que a escuridão se apossou do dia. É mágico e imperceptível para não ser notado. Muito menos ofender quem silenciosamente envelhecia.

Sem perceber, você passa a acordar cedo porque os sonhos, em sua maioria, já foram sonhados. Seria mesmo uma perda de sonhos deixar escapar uma vigília segura que nos garanta respirando outro dia. E nos recolhemos mais cedo a brigar com os filhos que passam a chegar tarde das ruas. Para eles, cheios de sonhos, mal passava da meia noite. Para os que apagam suas luzes mais cedo, como nós, já era madrugada.

Aos poucos vamos esquecendo as chaves, trocando nomes, endereços e telefones. E mesmo ligados cada vez mais no GPS, tropeçamos várias vezes pelas calçadas. Por mais horas que tenhamos cumprido de Pilates, milhares delas subindo e descendo as ladeiras do hospital acabaram por desgastar nossas dobradiças. E, num vacilo, somos levados para lá de maca a colar uma bacia. E agradecidos porque mais dois degraus acima e já nos deixavam na porta do asilo.

Mesmo conservados pelos cremes da Natura, acabamos virando um Fusca. Daqueles cultuados por tantos admiradores nos encontros dos carros antigos. Porque não há como ocultar, nos documentos, o nosso ano de fabricação. E dói mais quando eles se aproximam de nossa lataria, abrem o capô e chamam a atenção de todo mundo: “Vejam, tinha carburador!”.

Por mais que você tenha se cuidado a vida toda, evitado os cigarros, as “tais companhias” e moderado na bebida, você entra no banco cheio de gás após cruzar duas vezes uma Beira Rio e, ao buscar uma senha comum, surge um azião, da sua geração, e grita do outro lado chamando no Itaú a atenção de todo mundo: “Ei, Zé, a nossa de idosos é aqui!”

Desde muito cedo nos ensinaram a ceder o lugar nos ônibus para os mais velhos. Crescemos exercendo este gesto de gentileza para as gestantes também. E quando voltei mês passado ao Rio de Janeiro, e fui conhecer o VLT, uma senhora se aproximou carregando sua sacola. No mesmo instante levantei e lhe cedi o lugar. Educada, olhou para mim de cima e embaixo e respondeu: par ou ímpar?

Alguns riram. Outros, respeitosamente se calaram. Desse jeito, duro, real e complicado, você percebe o que o espelho já vinha lhe mostrado há algum tempo. Você já não é mais uma criança. E já alcançou a terceira idade.

Não se desespere. Apenas curta a realidade e quando a companhia tocar, levante, e mesmo com as dobradiças enferrujadas, abra a porta e deixe seus netos entrarem . Com sua alegria e inocência a lhe envolver, vão pedir para os levarem ou no circo ou no shopping. É aí que você vai à forra. E os convida a tirar a dúvida num aplicativo que eles, acredite, ainda não sabem como instalar: par ou ímpar?

Por José Roberto Lopes Padilha

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