Atentado em Juiz de Fora e 300 currais eleitorais do tráfico e milícia no Rio de Janeiro: lições foram aprendidas?

Sexta, 14 de Setembro de 2018.

As duas questões que dão título a essa coluna revelam a gravidade do desprezo democrático no Brasil de hoje.
A gravidade do atentado em Juiz de Fora não deve ser diminuída pelo fato da vítima insuflar violência política com suas ações, condutas, falas, imagens acerca de adversários; da vítima ter sido único presidenciável a não manifestar-se frente ao covarde assassinato da vereadora Mariele Franco (PSOL-RJ) em março de 2018; não importa se seguidamente a vítima de Juiz de Fora exalte um torturador, estuprador e assassino de adversários como Coronel Brilhante Ustra, que atuou na ditadura empresarial militar de 1964-1985. O que ocorreu em Juiz de Fora foi um atentado político. Importa levarmos em conta que extremismo mata tanto quanto interesses escusos- outro forte componente de assassinatos políticos no Brasil. Alguém ser assassinado (ou sofrer uma tentativa) em meio ao processo eleitoral é algo terrível e que incita a noção de que o fazer político é algo perigoso a vida. Um risco democrático. Por isso, todos os partidos e candidatos sem exceção manifestaram pronta solidariedade e repúdio ao atentado ocorrido em Juiz de Fora.
No jornal O Globo de 09 de setembro de 2018 (Página 11) saiu uma reportagem que deveria ser lida e debatida em cada esquina do estado do Rio de Janeiro; em cada bar; em cada reunião familiar; conversas em ônibus, trem ou praça. A reportagem assinada por Vera Araújo e Chico Otávio teve como título “Rio tem 300 currais eleitorais do Tráfico ou milícia: espaços exclusivos em favelas são explorados pelo crime organizado, que aumentou pretensões políticas; quando não há candidatos ligados a quadrilhas, comunidades são alugadas a políticos com pacotes negociados a R$ 200 mil”. O longo título fala por si. Em toda região de Gardênia Azul – região de Jacarepaguá- apenas propagandas de 4 candidatos, em duas dobradinhas. Estamos falando de um bairro de 17 mil habitantes. Só para o leitor levar em conta. Areal tem 11 mil habitantes e Levy Gasparian tem 9 mil habitantes (Todas essas informações segundo censo 2010 IBGE). Alguém imagina que apenas e tão somente 4 candidatos mobilizem 17 mil pessoas? Por que não se vê nenhuma propaganda de nenhum outro candidato de nenhum outro partido? Além disso, traficantes e milicianos cobram R$ 200.000 de candidatos para fazerem campanha. De onde saem esses recursos? São contabilizados na prestação de contas das candidaturas? Estamos falando máfias violentas. São a antisala do fascismo presente. As eleições deixam de representar a legítima expressão dos interesses da maioria da população. Qual o exato número de eleitores coagidos a votarem em determinados candidatos?
Há 2 semanas escrevemos sobre imensa abstenção. Creio que a abordagem desse professor tenha sido errada. Talvez a imensa maioria da população desses lugares opte por não ir votar para não contribuir com esses bandidos. Por mais que repita-se que voto é secreto, é possível saber quantos eleitores estão registrados em determinada sessão eleitoral e daí realizar a cobrança nominal. Assim, os riscos democráticos são imensos. Rompe-se a idéia de que cada eleitor é responsável por seu voto. Todos nós lembramos da expressão “voto de cabresto”. Queria indicar a obrigação dos setores populares- trabalhadores e trabalhadoras- em votarem nos candidatos indicados por empresários da cidade e donos de fazendas- os chamados “coronéis”. As vezes eram conduzidos por esses aos locais de votação. O “cabresto” era uma metáfora do laço usado para amarrar gado. Justamente contra a isso que muita gente lutou e pagou com seu sangue. Como por exemplo, Marielle Franco.

Marcelo Paula de Melo é doutor em Serviço Social (UFRJ) e professor da EEFD-UFRJ


Por Marcelo Melo

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