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Aurora e Expedita

Quinta, 25 de Junho de 2020.

Atualizado em Quarta, 24 de Junho de 2020 às 18:32 horas.

  Aurora e Expedita

Os quartos 302 e 306 eram próximos no corredor do Hospital de Clínicas Nossa Senhora da Conceição. Estava, semana passada, acompanhando um amigo que realizava exames no 304 e foi impossível não perceber o entre e sai intermitente de um contrastando com o ninguém entra, poucos saem, do outro.
Um deles, o 302, trazia na porta uma saudação a uma recém nascida: “Seja bem-vinda, Aurora”. O outro era ocupado, segundo as enfermeiras, pela Dona Expedita, 86 anos, sem qualquer alusão à porta. Todos da família 302 foram até lá saudar a chegada de Aurora, mas quase ninguém foi visto por lá visitando a Expedita. Poucos lugares ou corredores pelo mundo conseguiriam desnudar, em tão curto espaço, o quanto tem sido cruel a humanidade.
Pois Aurora nem aprendera a falar para agradecer, andar para retribuir, mas já se mostrara pequeno o espaço em que recebia tantos afagos. “É linda! Que gracinha!”. Dona Expedita, entretanto, que tanto educou os filhos, acolheu os genros e agraciou com mimos os netos, percebia o quanto era imenso o seu quarto a caber tanta ingratidão. Mas deu para ouvir isolados pesares, previsões pessimistas, no corredor diante do seu pré-coma: “Já morreu? Pobre Expedita!”.
Aurora recebia seu primeiro alimento junto ao peito quente de amor. Expedita, recebia o seu embalado em plástico, um soro inodoro, que machucava a veia sem a anestesia da compaixão. A humanidade, insensível, cobre de cerimônias e esperança os que chegam. E abandona no leito os que por ela tanto fizeram.
As paredes dos quartos, pintadas de pêssego, com leitos novos, automáticos, quadro nas paredes, fisioterapeutas diários, enfermeiras e médicos que pareciam ter saído de um curso em Harvard, revelavam o quanto nosso hospital melhorou. Mas em seu interior, quando festeja os que nascem e renega e abandona os que partem, desnuda o quanto nós, seres humanos, pioramos.
E a euforia do 302, e o silêncio do 306, fariam contraponto por todo o dia, escrachando valores, ferindo conceitos, se um produto descartável, a fralda, comum as duas internas, não transitasse pelo corredor, encharcadas, nas mãos das enfermeiras. E desnudasse, de uma vez por todas, o abismo da nossa falta de caridade.
As que foram trocados na pequena Aurora, à vista de todos, eram expostas como troféus de um intestino que também se apresentava aprovado. À altura da recepção.
Já as trocadas no 306, realizadas por cuidadoras na ausência de todos os filhos em que dona Expedita realizou infindas trocas, passou ocultada. Abafada. Disfarçando os resíduos de um estomago que fez tanta comida para a prole e dela aturou tantas más criações. Um intestino que dispensava por ali talvez suas últimas provisões em vida.
Enfim, desfilavam por ali, para exames tanto as fezes da esperança quanto o cocô da ingratidão. Mas enquanto os médicos aguardavam os resultados, soubemos mais tarde que Aurora foi para casa. E que Dona Expedita foi internada no CTI.
Pelo menos por lá, com as visitas controladas, pode cultivar a ilusão de que haveria uma gratidão postada a visitá-la. Após o desfile das fraldas, não havia mais dúvida de quem eram os seres descartáveis. Os sem tempo, sem amor, um bando de parentes ausentes a quem pertence e dedico toda a merda desta história.

Por José Roberto Lopes Padilha