Bodas de prata em cadeira de rodas: Agradecendo pelo evolutivo aprendizado

Sábado, 06 de Julho de 2019.

Definitivamente, não somos o que costumamos acreditar, por maior que represente a influência dos valores culturais e religiosos que nos hajam passado nossos antepassados, ou do que resulte das nossas conquistas pessoais nos diversos campos da vida, haveremos sempre de reconhecer que algo muito maior que nossa persona está a nos guiar. Algo que desconhecemos, talvez por falta de humildade e teimosia em nos julgarmos proprietários do que não nos é próprio, autorreferentes, presunçosos, dominados pelos próprios caprichos da vaidade e soberba humana, até que nos seja colocada prova cabal. Situações limite que surgem como fenômenos determinantes para mudança de rumo na vida das pessoas, como as muitas que nos são apresentadas todos os dias envolvendo amigos, familiares, personalidades de grande prestígio em várias áreas, ou meros desconhecidos, causando impactos deveras impressionantes.
Mudanças estruturais das coisas em nossas vidas, desde as de menor expressão às de grande potencial e comprometimento do que nos era tão relevante até então. Perplexosao nos perceber inábeis para executar movimentos voluntários simples, como o corriqueiro coçar parte do corpo, levantar sem ajuda e caminhar, banhar-se, vestir-se, calçar-se, escovar os dentes, utilizar os talheres para comer, entre outras atividades cotidianas, resta-nos recolher em angustiante silêncio e vigília. Em seguida, começamos vislumbrar nebuloso horizonte para sobrevida no longo prazo, quando dispomos de conhecimentos acadêmicos na área de saúde. Aos leigos no assunto, a dificuldade de entendimento sobre as relações da intercorrência com limitações impostas à mobilidade corporal, levam as pessoas a acreditar que a solução esteja logo à frente, ainda que argumentações contrárias lhes sejam pontuadas pelos profissionais que os assistem. Na verdade, todos nós, a despeito da formação profissional ou o grau de desconhecimento específico na área de saúde, tememos tudo que represente ameaça para a confortável estabilidade da nossa habitual zona de conforto. Mais ainda, de tudo que nos impossibilite o exercício autônomo da mobilidade e funcionalidade corporal, com perda da privacidade em questões que envolvam dependência para higiene e intimidades pessoais. Nesse sentido, tememos e sofremos quando flagrados em pânico após tomarmos conhecimento de que teremos de reiniciar todo um longo percurso nos programas de reabilitação física, por consequência de lesão neurológica que nos fez dependentes da ajuda de terceiros para suprir nossas necessidades humanas básicas.
De imediato, elaboramos rápida retrospectiva em balanço do que éramos instantes, dias, meses e anos atrás, resistindo ao máximo admitir a hipótese da nova realidade que nos tenha chegado assim, tão de repente. Com o passar do tempo, logo vamos nos dando conta de que as coisas não ocorrem exatamente como desejamos e que a melhor alternativa no cômputo da reabilitação física precisa ser arquitetada em cooperação com as equipes profissionais, pares e cuidadores experientes. Tornando cada vez mais claro que compete apenas a nós mesmos a busca de força interior para enfrentar desafios que estão por vir, reconhecendo nossas próprias vulnerabilidades. A propósito, como assevera Brené Brown, na obra “A coragem de ser imperfeito: como aceitar a própria vulnerabilidade, vencer a vergonha e ousar ser quem você é”, a resiliência é a nossa capacidade de nos recuperar rapidamente de um revés ou de nos adaptarmos a uma mudança. A autoaceitação é fundamental porque quando conseguimos ser compreensivos com nós mesmos durante um episódio de vergonha, ficamos mais propensos a nos expressar, nos abrir com alguém e experimentar afeto e empatia. O que muitos não conseguem entender, é que a vulnerabilidade é também o berço das emoções e das experiências que almejamos. Quando estamos vulneráveis é que nascem o amor, a aceitação, a alegria, a coragem, a empatia, a criatividade, a confiança e a autenticidade. Se desejamos uma clareza maior em nossos objetivos ou uma vida espiritual mais significativa, a vulnerabilidade com certeza é o caminho. Experimentar a vulnerabilidade não é uma escolha – a única escolha que temos é como vamos reagir quando formos confrontados com a incerteza, o risco e a exposição emocional.
Vencidos nossos bloqueios interiores e diante do que não pode ser mudado no curto prazo em termos objetivos de funcionalidade corporal, nos tornamos mais conscientes da contribuição que podemos dar para a melhoria substancial da vida de muitos outros pares, passando a nos envolver em grandes questões de interesse coletivo. Assim, a vida passa a nos apresentar prioridades mais amplas que as outrora consideradas essenciais. As pautas sociais antes ignoradas, despercebidas, passam a nos chamar atenção não apenas porque nos afetam diretamente, mas pelas suas implicações coletivas, contando com nosso empenho para tornar a vida em sociedade menos conturbada, frustrante e difícil para quem tem algum tipo de deficiência. Em assim procedendo, a vida e as dificuldades do outro penetram nossas mentes e corações e nos apresentam a nova face de nós mesmos, ampla e efetivamente renovada, aberta, sensível, para o acolhimento dos mais frágeis e vulneráveis.
A percepção do quanto mudamos para melhor desde o momento em que aceitamos o que não conseguimos compreender, com base na rigidez dos métodos e princípios científicos, amplia de modo surpreendente nossa sensibilidade para o que de fato possa servir para ajudar nossos semelhantes. As experiências de vida relacionadas ao adquirir algum tipo de deficiência, agir com prudência e ter maturidade para superar cada uma das suas provas, conferem mudanças significativas na vida das pessoas. Contudo, sem que ocorra o despertar para nossa dimensão interna, o Eu Superior que nos habita o íntimo, poucose altera no que realmente precisamos mudar em termos evolutivos. Por fim, Deus pode não nos dar tudo aquilo que pedimos, mas tão-somente nos agracia com o que precisamos para aprendizado do espírito, tornando-nos melhor preparados para colaborar com o Plano Evolutivo, estejamos aqui ou no Plano Espiritual. Sejamos gratos, sempre!!!

Por Dr. Willian Machado

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