ÚLTIMAS NOTÍCIAS
ÚLTIMAS

Como foi o ano de 2020 para as Pessoas com Deficiência?

Sábado, 19 de Dezembro de 2020.

Atualizado em Sexta, 18 de Dezembro de 2020 às 18:38 horas.

 

Estamos na reta final para o término do ano de 2020, no qual pessoas com deficiência experimentaram desafios aparentemente intransponíveis para conseguirem se preservar ao máximo, de acordo com as potencialidades de cada um, envolvendo equilíbrio e alinhamento mental, emocional, físico e espiritual, em decorrência da disseminação da pandemia do COVID-19. Como é sabido, essas pessoas, a depender do tipo de deficiência, natureza epidemiológica e perfil sociodemográfico, rede de apoio social, rede de cuidados de saúde e reabilitação, entre outros, apresentam variados graus de dependência dos outros para cuidados de suas necessidades básicas e instrumentais, sem os quais sucumbiriam.

Nessa linha de raciocínio, pode-se perfeitamente elaborar ideia aproximada do que representa o viver dependente de alguém para nos prestar cuidados, quando nossos próprios cuidadores também vivem ameaçados e expostos a contrair a doença disseminada nessa pandemia, e caso por ela sejam acometidos, precisam se afastar dos compromissos conosco. Esse, nosso maior pesadelo! Posso afirmar que se trata de ideia aproximada porque não há como perceber, sentir, experimentar e viver o complexo processo que envolve as vulnerabilidades do outro, como dificuldades de controle dos pensamentos, emoções,involuntariamente manifestado através do medo, ansiedade, angústia, depressão e todo tipo de fragilidades que emergem no nosso dia a dia.Por isso, o sentir do outro apenas a ele confere viver sua total dimensão e subjetividades. 

Via de regra, nós, dependentes da ajuda funcional dos nossos cuidadores, tanto temos de nos preocupar com a própria saúde e integralidade física, mental, emocional e espiritual, quanto daqueles que nos assistem, sejam eles familiares ou cuidadores profissionais. De forma a garantir que estejam presentes nos momentos em que precisamos de suporte para cuidados, conforto e mobilidade. No fundo, ainda vivemos numa sociedade excludente que se mantém descompassada com os indicadores censitários oficiais, fundamentais para o planejamento, execução e avaliação de políticas públicas equânimes. O que também se constata pela falta de adequação dos programas de ensino universitário ou profissionalizante das diversas áreas, tendo em conta a inclusão de temáticas que visem atender as necessidades específicas dos segmentos minoritários da população, como pessoas com deficiência. Afinal, minoritários só mesmo em rótulo excludente, considerando representarmos cerca de 45% da população, contingente humano de 45 milhões brasileiros invisíveis. Da mesma forma, discriminados nos planos estratégicos dos governos das três esferas da administração pública, onde inexistem estratégias preventivas de cobertura e distribuição de EPIs para nossos familiares e cuidadores, caso contraíssem a doença.

Logística deficitária e agravada pelo despreparo das equipes profissionais atuantes na linha de frente hospitalar da pandemia, caso internado surdo, cego, cadeirante, entre outras pessoas com deficiência, uma vez não terem sido ensinados e habilitados para cuidar e interagir adequadamente com essa clientela. Muitos registros, depoimentos de pares e seus familiares tecendo narrativas contundentes sobre suas experiências de abandono nos leitos dos hospitais de campanha ou unidades de saúde reservadas para acolher e tratar dos casos mais graves da COVID-19.

A implementação da Rede de Cuidados da Pessoa com Deficiência através da Portaria nº 793, do Ministério da Saúde, em 2012, acalentou esperanças nesse segmento da sociedade, seus cuidadores e familiares, compreendendo tratar-se de oportunidade singular para trazer o paradigma social da deficiência para a realidade nos contextos hospitalares, de reabilitação e nas comunidades. Contudo, ela não se mostrou eficiente a ponto de inovar na adequação rápida de planos de ação para atender essas pessoas, assumindo a necessidade de deslocamento das suas equipes dos pontos de atenção na estrutura da atenção básica, urgência e emergência hospitalar, para atuar nos processos de triagem, diagnóstico e encaminhamentos que garantissem que ninguém ficasse isolado por falta de profissional habilitado para se comunicar com surdos através da Libras, tanto quanto receber cuidados e assistência a eles direcionados.  O importante é assumir que será preciso rever valores pessoais, sociais e protocolos institucionais para tornar os atendimentos mais humanizados e disponíveis a todos os cidadãos e cidadãs contaminados pelo vírus, a partir de 2021. Porque há claros sinais subjetivos de que essa pandemia veio para transformar nossa atual maneira de nos colocarmos frente ao sofrimento dos nossos semelhantes, isso, até que de fato mostremos ter aprendido a lição.

Por Dr. Willian Machado