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Condutas de inclusão e exclusão da pessoa com deficiência na sociedade: Uma questão de sustentabilidade e cidadania

Sábado, 29 de Agosto de 2020.

  Condutas de inclusão e exclusão da pessoa com deficiência na sociedade: Uma questão de sustentabilidade e cidadania Conceber o outro como um dos nossos semelhantes parece cada vez mais difícil em nossa sociedade, tamanhas distorções dos valores morais e princípios que norteiam as ações humanas no dia a dia, particularmente aquelas dirigidas aos seus grupos minoritários. Nossos traços físicos e nossas características singulares ainda são alvos de discriminação e preconceito, fundamentalmente quando destoantesdos padrões convencionaisde determinada sociedade, e constituem objeto de julgamentosque desqualificam pessoas pertencentes a estipulados recortes dessamesma sociedade. Faz mister pontuar que o relacionamento que a sociedade estabelece com as pessoas com deficiência revela marcas históricas tradicionalmente excludentes, desumanas, em que as pessoas com deficiência eram segregadas, tendo seu convívio restrito a ambientes e instituições especializadas por serem rotuladas incapazes.
O processo de exclusão/inclusão social é multidimensional e determinado por diversos fatores. A inclusão social enquanto constructo do reconhecimento essencial da igualdade e equidade nas relações humanas, desabrocha em virtude da persistente busca rumo ao amadurecimento do senso de cidadania e civilidade das pessoas e sociedades. Não é um processo simples porque implica em se considerar uma série de valores e princípios que orientam políticas, cultura, atitudes e práticas. Ademais, a inclusão social é um processo de promover direitos, acessos, escolhas e participação, além disso, está relacionada à possibilidade de as pessoas encontrarem mais realização nas suas vidas e fazerem parte da comunidade. Enquanto a exclusão social é consequência do preconceito, alicerçado por um conjunto de crenças, atitudes e comportamentos que consiste em atribuir a qualquer membro de determinado grupo humano uma característica negativa, pelo simples fato de pertencer àquele grupo.
O lema “iguais na diferença”, inspirador da Convenção da ONU sobre Direitos da Pessoa com Deficiência, é bastante feliz. Não se trata de querer que as pessoas sejam todas iguais, mas que elas tenham iguais oportunidades e que suas ditas “deficiências” não sejam empecilhos para o exercício de seus direitos e liberdades. Tudo isso como parte integrante de múltiplos níveis de cidadania ou de uma “cidadania complexa”. Quebremos o ciclo da visão assistencialista e paternalista da deficiência! Nenhuma pessoa com deficiência precisa da pena dos outros, precisa sim de oportunidades para se desenvolver, como qualquer um. Oportunidades para mostrar que a deficiência é e sempre será potencializada na medida em que persistirem conjunturas sociais, políticas e atitudinais deletérias aos seus direitos fundamentais de cidadania.
Existem duas formas de pensar a deficiência: uma baseada no modelo médico (mais antiga) e uma baseada no modelo social (tendência atual). A principal característica do modelo médico é a descontextualização da deficiência, enfocando-a como um incidente isolado e enquadrando-a no rol das lesões/doenças incapacitantes. O modelo social da deficiência, por sua vez, transcende o meramente aparente e valoriza a diversidade. Surgiu por iniciativa de pessoas com deficiência, reunidas no Social Disability Movement, na década de 1960.
Como sublinha Cláudia Werneck, de acordo com o modelo social, a deficiência é uma soma de duas condições inseparáveis: as sequelas existentes no corpo e as barreiras físicas, econômicas, atitudinais, comunicacionais e sociais impostas pelo ambiente ao indivíduo que tem essas sequelas. Sob essa ótica, é possível entender a deficiência como uma construção coletiva entre indivíduos (com ou sem deficiência) e a sociedade. Isto posto, cabe refletir e avaliar a que ponto as conjunturas ambientais, políticas, atitudinais e arquitetônicas das cidades em que vivemos favorecem ou dificultam direitos de plena inclusão das pessoas com deficiência, servindo de instrumento balizador no próximo pleito eleitoral. Se as cidades que residimos não nos oferecem oportunidades para desfrutar do modelo social de deficiência, algo precisa ser mudado.Então, que se mude agora!

Por Dr. Willian Machado