Conscientização da violência contra a pessoa idosa

Sábado, 23 de Junho de 2018.

Instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Rede Internacional de Prevenção à Violência à Pessoa Idosa, em 2006, o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosadeve ser refletido com seriedade que o tema merece.Atos de violência majoritariamente praticados nos cenários intrafamiliares, tendo como agressores filhos, cônjuges, demais familiares e pessoas estranhas ao núcleo familiar que se aproximam dos idosos com intenções de extorquir e se apropriar dos seus bens e recursos materiais diversos.
O objetivo da data foi criar uma consciência mundial, social e política da existência da violência contra a pessoa idosa, e, simultaneamente, disseminar a ideia de não a aceitar como normal, como se convencionou considerar. Conscientizar implica no ato de se tornar consciente, ou seja, de obter informação, de ter conhecimento sobre algo ou de transmiti-lo para outra pessoa; enquanto aconscientização é o processo de se conscientizar, isso significa que o indivíduo pode adquirir o saber ou fazer com que outro o obtenha. Nesse sentido, a conscientização pode ou não produzir resultados satisfatórios ao objeto ou tema que se pretende alcançar, dependendo da disposição, prontidão e abertura dos indivíduos envolvidos no seu processo. Ademais, é importante considerar que pessoas envolvidas no processo de conscientização, simplesmente, tomamconhecimento, porém, sem se despertar para o componente subjetivo, sensível, fraterno, amoroso, que o transpassa e deve ser seu ponto de maior relevância, a vulnerabilidade dos idosos para maus tratos e humilhações de toda ordem.
A conscientização como processo de mudança de conduta violenta, desprezível, indiferente, usurpadora ou negligente para com a pessoa idosa, somente surte efeitos transformadores na mentalidade dos seus algozes, quando se operam forças do amor, instrumento e manifestação dos planos divinos. Há premência de se tocar o coração das pessoas que costumam proceder com comportamentos violentos, praticando atos de maus tratos contra idosos. Por mais insensíveis que possam parecer os agressores, faz mister lembrar que todos custodiamos Potencial Divino que nos conecta ao Criador.
Paralelamente, todos também trazemos inatos dois polos, o positivo e o negativo, o bem e o mal, se assim não o fosse, já não mais pousaríamos em orbes de expiação e provas, como o terrestre. Assim, investir na valorização dos mais nobres propósitos dos nossos semelhantes é sempre a melhor alternativa. Não há coração humano que resista indiferente ao poder transformador do Evangelho de Jesus, a única via de elevação que nos conduz ao autoconhecimento, aos nossos valores morais.
Por outro lado, do ponto de vista convencional, o processo de conscientização, figuradamente, assemelha-se às operações mecânicas de abertura na cavidade cerebral das pessoas, e nela introduzir discursos transformadores, o que não me parece coerente, viável, consistente ou produtivo. Em eventos alusivos ao 15 de junho, caberiam exercícios reflexivos sobre o que o poder público oferece em termos de estrutura operante de programas e serviços de apoio aos idosos vulneráveis. Qual o percentual da arrecadação é investido e revertido em políticas públicas para idosos? Materializado em programas e serviços de apoio pautados em diretrizes bem delineadas, que se proponham ao implemento de procedimentos terapêuticos para os agressores que apresentem comprometimentos mentais e emocionais, tanto quanto medidas judiciais para enquadramento dos que agem munidos pela ambição, crueldade e desamor, simplesmente.
Uma rede bem estruturada e organizada de Instituições de Longa Permanência para Idosos, constitui retaguarda fundamental para assegurar o acolhimento dos casos mais graves de maus tratos, quando esgotadas tentativas de responsabilização de algum membro do núcleo familiar disponível para cuidar do idoso vulnerável. Deve-se investir ao máximo para que o idoso não seja institucionalizado ou afastado do convívio familiar. Todas as dificuldades devem ser analisadas à exaustão, pois uma determinação judicial precoce de guarda para que ente familiar discordante exerça responsabilidade de cuidados do idoso pode desencadear comportamentos de mais agressividade para com este. A propósito, intervenções baseadas em evidências não falham, pois que decorrem de sistemáticas avaliações diagnósticas da realidade, previamente realizadas, objetivando identificar estratégias efetivas de interdição e afastamento dos algozes. Um conjunto de intervenções multiprofissionais devidamente respaldadas em rede de apoio consistente e capaz de intervir com prestação de atendimentos às necessidades da vítima e familiares afetados. Não mais complexa e prioritária que demais áreas da administração pública, nas três esferas de governo, a saúde, reabilitação e promoção social dos idosos requerem financiamento proporcional ao crescente envelhecimento da população, sem o qual pouco se poderá fazer para erradicar ocorrências de maus tratos e retribuir com dignidade tudo que as pessoas longevas construíram para nós.

Por Dr. Willian Machado

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