Copa do Mundo, Futebol e Política: verdeamarelismo em campo

Sexta, 15 de Junho de 2018.

A realização de qualquer megaevento esportivo, sobretudo, Jogos Olímpicos e Copa do Mundo de Futebol FIFA, sempre acende a viva discussão sobre as relações entre esporte e Política. Nesse caso, política é muito mais amplo do que as disputas partidárias em cada país específico.
Os esportes não estão alheios às batalhas políticas ao longo de nossa história. É inegável o potencial político-pedagógico que os grandes eventos esportivos apresentam. Também dinamizam a economia capitalista, atendendo a interesses de diversas frações empresariais (financeira, serviços, comercial, industrial, bélica, midiática, dentre outras), a fim de alocar uma massa de capitais em busca de valorização. Os grandes eventos precisam que as populações locais dos países onde são realizados estejam minimamente simpáticas à realização dos mesmos, sobretudo, devido imensa quantidade de recursos públicos em sua preparação e realização. Lembremos o caso brasileiro dos Jogos Olímpicos Rio 2016 e a Copa do Mundo FIFA 2014. Sua apresentação, divulgação e defesa perante o conjunto da sociedade não prescinde de elementos ditos sociais, bem como de uma alegada preocupação ambiental e urbanística, mediante a menção constante da expressão “LEGADO”.
Marilena Chauí, no livro BRASIL: MITO FUNDADOR E SOCIEDADE AUTORITÁRIA (editora Perseu Abramo, 2001), apresenta um conceito que nos ajuda a pensar a relação Futebol, política e nacionalismo. O “Verdeamarelismo” se relaciona com a transmissão da imagem de celebração do povo brasileiro, enquanto um nacionalismo acrítico e ingênuo. Tem esse nome em função das cores predominantes da bandeira nacional. O culto ao VERDE e AMARELO expressam seu modo de atuação, também presente no “otimismo da exaltação à natureza e tipo nacional pacífico e ordeiro”. Esse seria o Brasil e o Brasileiro.
O VERDE AMARELISMO esteve presente nos Governos Vargas da Ditadura do Estado Novo (1932-1945), na Ditadura empresarial militar a partir do golpe de 1964 (Brasil: ame ou deixe-o) e também em períodos democráticos. Lembremos a campanha no início dos Governos Lula da Silva (2003-2010) em que dizia que “O MELHOR DO BRASIL SÃO OS BRASILEIROS”. Por muito tempo no desfile das Escolas de Samba no Rio de Janeiro- EVENTO DE ALCANCE NACIONAL e atualmente alcance mundial- obrigou-se que os enredos tratassem de temas nacionais nos desfiles.
Chauí mostra que o VERDEAMARELISMO se traduz como projeto e forma de atuação política de diversos estratos das classes dominantes. Assim, “se antes o verdeamarelismo correspondia à autoimagem celebrativa dos dominantes, agora ela opera como compensação imaginária pela condição periférica e subordinada do país” (p. 36). Novamente Chauí auxilia a caminhada ao chamar atenção de como um dos elementos caros ao chamado “verdeamarelismo” é o que chama de orgulho do atraso. O verdemarelismo prega a união nacional com a colaboração e cooperação entre explorados e exploradores. Daí a força e potência dos comerciais em saudar a festa, a união de todos os brasileiros ao redor dos grandes eventos, a alegria estampada nas ruas, os bares cheios de gente festejando.
Gostar de futebol, seja do espetáculo esportivo, seja da própria seleção brasileira, não transforma ninguém em cúmplice do golpe e da exploração. Gostar de futebol não é retrato de alienação política. São processos distintos, que PODEM OU NÃO ANDAREM JUNTOS. O determinante é não ser massa de manobra em hipótese alguma.


Marcelo Paula de Melo é doutor em Serviço Social (UFRJ) e professor da EEFD-UFRJ.

Por Marcelo Melo

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