Copa do Mundo, Geopolítica e falta de sentimento latino dos brasileiros

Sexta, 06 de Julho de 2018.


O termo América Latina é atribuído a todos os países do continente Americano abaixo dos Estados Unidos. Ou seja, tirando esse país e o Canadá, todos os outros do continente (que vai de Ushuaia no sul da Argentina ao Alasca acima do Canadá) são considerados latinos. Ser latino não está relacionado a ter sido colonizado por espanhóis (quase toda América do Sul, Central e México) e portugueses (Brasil, apenas). Lembremos que diversos países tiveram colonização britânica (Guiana, Jamaica, Bahamas), Holandesa (Suriname), francesa (Guiana Francesa, Haiti). As guerras dentre os países europeus ao longo século XVI ao XIX fizeram com algumas regiões mudassem de controle. Lembremos o caso da região do nordeste do Brasil entre Natal e Recife que foi domínio holandês por mais de 20 anos (de 1630 a 1654, com Recife como capital). Ser latinoamericano então é uma condição permanente que deveria fazer parte da identidade de todos os povos ao sul do Rio Grande (umas das marcas que separam México dos EUA).
O venezuelano Simon Bolivar (1783-1830) e o argentino Jose Marti (1778-1850), considerados como líderes do processo de libertação\independência da Espanha em diversos países da América do Sul, falavam constantemente a expressão “Pátria Grande”. Com isso, buscavam defender que os povos da América Latina deveriam formar uma única nação. Que as diferenças imensas presentes não são suficientes para gerar nenhuma animosidade entre nós. Que seus inimigos eram os colonizadores estrangeiros e também seus aliados nacionais. As classes dominantes dos diversos países latino americanos estão as mais corruptas, elitistas, entreguistas. Nacionalismo para essas só existe em época de torneios esportivos, quando aparecem com as bandeiras de seus países e cantam os hinos ao mesmo tempo em que promovem criminosas políticas de privatização de riquezas e serviços nacionais. Os exemplos brasileiro, mexicano e argentino (três maiores países da América Latina) são emblemáticos.
A falta de sentimento de latinidade nos brasileiros – das mais diversas escolaridades- é assustadora e espantosa. Claro que as raízes, motivações e explicações para isso são as variadas possíveis. Basta perguntarmos que tirando Chaves, Carossel, Rebeldes e novelas do SBT (Maria do Bairro, Usurpadora dentre outras) quais referências culturais os brasileiros tem do México? Saindo dos círculos mais escolarizados, figuras como Frida Khalo e Diego Rivera são integralmente desconhecidos do brasileiro médio. Frida no máximo por sua auto pintura (mulher de bigode e sobrancelha unida). Tanto que na vitória brasileira sobre o México todos os memes e piadas deram-se em relação ao CHAVES.
O cantor e compositor cearense, brasileiro e latino americano Belchior (1946-2017) tem uma canção chamada RAPAZ LATINO AMERICANO. Nessa canção ele fala: “Eu sou apenas um rapaz
Latino-Americano, Sem dinheiro no banco, Sem parentes importantes, E vindo do interior”. Nessa canção, Belchior não apresenta-se como cearense ou brasileiro. Não é apenas por questões de rima, mas sim de opção política do compositor. É a clareza de que carioca, paulista, baiano, cearense, potiguar, gaúcho, argentinos, bolivianos, peruanos, colombianos, venezuelanos, mexicanos temos algo em comum: somos latinoamericanos. Estamos em casa em cada país do continente.
Vejamos a rivalidade futebolística Brasil x argentina. Já ouvimos muitos brasileiros repetirem que não gostam de argentino SEM NUNCA TER PASSADO 1 MINUTO DE SUA VIDA COM UM ARGENTINO. Sem nunca ter conversado por 1 minuto sequer. Sem nunca ter posto o pé em nenhuma cidade argentina. São formados a partir da visão de mundo de Galvão Bueno. A falta de sentimento latinoamericano do Brasil e dos brasileiros faz com que haja profunda resistência em apropriar-se dos produtos culturais dos países vizinhos. Isso só ocorre quando vem pela grande mídia. Exemplo da Colombiana Shakira, dos Portoriquenhos do Menudo (e depois de Rickin Martin) e Luis Fonsi (despacito), Mexicanos do Carrosel, Chaves e rebeldes.
Pobres de nós, latinoamericanos. Celebremos a literatura latino americana, nossa música, nosso cinema, nossas artes plásticas, nossos esportes, nossa culinária. Olhemos para o lado! Viva la Patria grand de la América Latina. Vamos Uruguay, Vamos Brasil!

p.s. Dedicada a meus amigos argentinos Alejo Levoratti, Facundo Herrera y Daniel Zambaglione

Marcelo Paula de Melo é doutor em Serviço Social (UFRJ) e professor da EEFD-UFRJ.

Por Marcelo Melo

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