Copa do Mundo, Política e Economia: muito além das 4 linhas

Sexta, 29 de Junho de 2018.

Não resta dúvida que os esportes em geral, e os grandes eventos esportivos (COPA DO MUNDO FIFA e JOGOS OLÍMPICOS), não estão separados das questões político-econômicas em nosso tempo.
Existe a determinação das entidades esportivas de proibir manifestações políticas (de cunho reivindicativo de diversas ordens, sejam progressistas, reacionárias, puramente nacionalistas ou de pautas identitárias). Apesar disso, as determinações político-econômicas têm uma força existencial, estando presentes em cada canto da nossa existência. Seria no mínimo ingenuidade achar que não se fariam presentes em campos e arquibancadas.
Na Copa do Mundo de 2018 na Rússia tivemos uma série de exemplos ricos. A partida entre Suíça e Sérvia em 22-06-2018 foi emblemática. A equipe suíça é composta por muitos jogadores que são filhos de migrantes das regiões da Antiga Iugoslávia. Todos sabemos que nos 1990 tal região entrou em guerra e deu origem a diversos países em processos bem traumáticos. Os países são: Croácia, Bósnia, Macedônia, Montenegro, Eslovênia, Kosovo, Sérvia. Os sérvios são considerados os herdeiros da identidade da ex-iugoslávia. As acusações de crimes contra humanidade, limpeza étnica contra dirigentes sérvios foram muitas. Na partida entre Suíça e Sérvia (placar de 2x1 para Suíça) os gols dos vencedores foram marcados pelos jogadores Granit Xhaka, Xherdan Shaqiri. O segundo nasceu no Kosovo e Xhaka é filho de kosovares, mas em regiões em que a maioria da população é de origem albanesa. Ao fazerem os gols ambos comemoraram representando uma águia com as mãos. Essa inocente águia é na verdade símbolo da bandeira da Albânia. Ambos jogadores, juntamente a Stephan Lichtsteiner, foram punidos com multas.
O comportamento machista de torcedores de diversos países sul-americanos também é emblemático. Primeiramente é preciso fazer um corte socioeconômico. Os torcedores brasileiros, argentinos, colombianos e de outros países que estão na Rússia acompanhando os Jogos da Copa possuem alta capacidade de consumo. Estão nos estratos superiores de renda. Uma jornada dessa custa no mínimo R$ 12.000,00. Muito por baixo, uma vez que somente de passagem aérea gastar-se-á quase a metade disso. Sem contar estadia e gastos diários. Provavelmente são pessoas de alta e\ou média escolaridade. Isso não impediu de serem flagrados em brincadeiras de baixíssimo nível, com condutas em alguns casos criminosas. Não somos apenas os brasileiros. Argentinos e também colombianos (além de outras nacionalidades que desconheço exemplos) produziram cenas lamentáveis. Ataques à jornalistas mulheres também foram observados em diversas situações. É preciso que todos aprendam desde cedo que não é engraçado agir como um BABACA. Que as crianças aprendam que são condutas vergonhosas e inaceitáveis e que são passíveis de serem responsabilizados.

P.s. o melhor efeito da desclassificação Alemã na Rússia foi que as pessoas das mais variadas escolaridades e visões políticas puderam aprender que quem derrotou militarmente a Alemanha nazista na segunda Guerra Mundial foi o EXÉRCITO VERMELHO SOVIÉTICO e não o CAPITÃO AMÉRICA, como mostram os filmes de Hollywood. Por isso, as piadas que “a Alemanha não costuma se dar bem na Rússia”.
Marcelo Paula de Melo é doutor em Serviço Social (UFRJ) e professor da EEFD-UFRJ

Por Marcelo Melo

B01 - 728x90