Corpus Christi e corpos descartados

Quarta, 19 de Junho de 2019.

Amanhã, 60 dias após o Domingo de Páscoa, na primeira quinta-feira após o Domingo da Santíssima Trindade, a Igreja celebra solene e publicamente Corpus Christi. Uma festa instituída pelo Papa Urbano IV em 1264 e reafirmada pelo Concílio de Viena em 1311. Trata-se de uma celebração para testemunhar publicamente a fé na Eucaristia, no corpo- sangue de Jesus, alimento da fé e penhor de vida e vida eterna! Pois Jesus disse: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10); “O Pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo” (Jo 6,51b);e “Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna e Eu o ressuscitarei no último dia” Jo 6,54); e “Dei-vos o exemplo para que façais o mesmo” (Jo 13,15).
A instituição dessa grande festa Eucarística se deu por motivo litúrgico-catequético, num contexto em que a piedade valorizou unilateralmente a Adoração do Santíssimo Sacramento em detrimento, em prejuízo de sua finalidade: ser alimento para ser comido! Recordemos a sua instituição na Quinta-feira Santa: “Jesus tomou o pão, deu graças, partiu e distribuiu aos seus discípulos, dizendo: Tomai e comei! Isto é o meu Corpo que é dado por vós; fazei isto em memória de mim (...) Este cálice é a nova Aliança em meu sangue; todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em memória de mim” (1 Cor 24-25). Assim, a adoração ao Santíssimo Sacramento só tem sentido como um prolongamento da comunhão eucarística, como uma intimidade orante com o Senhor em seu coração.
Recordemos ainda, que a Instituição da Eucaristia se deu no contexto da paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele foi condenado por ter amado a todos e amado a partir dos pobres. Assim quando celebra a Última Ceia, a primeira Missa, ele lava os pés dos seus apóstolos. O lava-pés, naquela época, era o ofício mais humilhante de um escravo. Jesus se faz o último para não excluir a ninguém de seu amor-salvador e nos deixa o seu exemplo como um legado a ser seguido: “Dei-vos o exemplo para que façais o mesmo” (Jo 13,15). Daí o imperativo do amor solidário com os sofredores, pecadores e pobres. Para sempre será missão da Igreja e de cada cristão em particular dar o peixe, ensinar a pescar e conscientizar e organizar os pescadores para que não tenham seus peixes subtraídos. Mas, partilhar!
No Corpus Christi desse ano os belíssimos tapetes para a Procissão com o Santíssimo Sacramento devem sugerir à consciência dos cristãos a se comprometer com uma cidade em que as relações humanas sejam mais fraternais, justas, caridosas, solidárias e seguras para todos, enfim bonitas, inclusive para os mais pobres. Isso implica necessariamente a denúncia profética contra a violência e suas causas, que nos últimos tempos tem-nos feito semanalmente testemunhar os cadáveres dos assassinados, como vidas excluídas, corpos descartados. A lado destes estão outros corpos descartados: moradores de rua, enfermos sem condições de tratamento, adolescentes em situação de prostituição, desempregados sem o pão para seus comensais, ... Corpos desnudos, como de Jesus na cruz!
Vale, enfim, para todos nós, a advertência de São Paulo à Comunidade de Corinto: "não vos posso louvar (...), quando vos reunis, já não é para comer a ceia do Senhor, porquanto, mal vos pondes à mesa, cada um se apressa a tomar sua própria refeição; e enquanto uns têm fome, outros se fartam. (...) Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do corpo e do sangue do Senhor. Que cada um se examine a si mesmo e, assim, coma desse pão e beba desse cálice. Aquele que o come e o bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação. Essa é a razão por que entre vós há muitos adoentados e fracos, e muitos mortos” (1 Cor 11, 18-21.28-30). Corpus Christi: manducação, adoração, fraternura, partilha e justiça!

Medoro, irmão menor-padre pecador

Por Padre Medoro

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