Cotas de Tristeza

Quinta, 27 de Junho de 2019.

Cotas de Tristeza

Poucas vezes, na história do nosso glorioso hospital, apreciei dezenas de pessoas em estado absoluto de tristeza vencerem suas íngremes ladeiras com tamanho vigor. Subiam, desciam e oravam com a força de pulmões raramente límpidos e respirados por ali. Em silêncio, buscavam explicações, senhas, acesso àquela menina que dedicou sua vida a melhorar suas qualidades de vida. O esporte, sua praia, sua raia, sua pista, sempre foi a sua razão de ser. Razões que a fizeram tão querida. Razões de ser Cristiane.

A conheci no CAER dando aulas de hidroginástica e natação. Fazia do seu ofício uma religião e quem caia nas águas sob sua orientação deixava por lá dores, angustias, más posturas e frustrações. Depois foi para o SESC, o SESI e onde mais tivesse espaço para transformar ócio em movimentação. Injetar ânimo aos corpos mais sedentários que aparecessem à sua frente.

Quando recebi a notícia do seu delicado estado de saúde, ocorrido durante a prática de uma das suas paixões, o ciclismo, fiquei a imaginar que só mesmo os tubos de oxigênio, as cânulas que conduziam soros e injetavam sangue seriam capazes de conter seu arsenal de adrenalina. Só mesmo uma unidade de terapia intensiva e vigiada a conter um vulcão sempre prestes a exalar incomuns superações

Nossa cidade, que tanto cresceu, conservou uma tradição que, ultimamente, tem abusado da nossa cota de sofrer. Pois quando uma nota de pesar anunciada vira uma esquina, pouco adianta tapar os ouvidos, fechar o coração, esconder a alma debaixo da cama. Lá se foi um pedaço Cristiane, uma cota Armindinho, um aconchego da Gê carregando junto uma parte bonita da vida gente.

Descanse em paz, professora e amiga.

Por José Roberto Lopes Padilha

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