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Covid-19 – Como cuidar de pessoas com deficiência contaminadas pelo vírus?

Sábado, 18 de Julho de 2020.

  Covid-19 – Como cuidar de pessoas com deficiência contaminadas pelo vírus? É fato que a pandemia do novo coronavírus nos pegou de surpresa com novas demandas preventivas e assistenciais em saúde, requerendo planejamentos estratégicos de curto e médio prazos para gerenciar a inevitável disseminação do vírus na sociedade, frequentemente, desleixados por gestores públicos de estados e municípios, político ou ideologicamente contrários ao governo federal. Nesse vórtice inconsequente de disputas retóricas, muito tempo se perdeu e ainda se perde para construir, estruturar e operacionalizar bases consistentes para enfrentar as novas configurações clínicas e epidemiológicas da doença, alterações biológicas e morfológicas do vírus, deixando as pessoas atônitas pelo bombardeio de informações distorcidas, órfãs do medo.
Entre grupos sociais desassistidos na pandemia destacam-se pessoas com deficiência contaminadas pela doença e seus indispensáveis pais, mães e cuidadores domiciliares que, por óbvias questões de dependência e incapacidade física, sensorial ou psicossocial dos primeiros, e vínculos morais, éticos e fraternais que as unem, seus familiares não as abandonariam, ainda que expostos ao iminente risco de contrair a doença. Pode parecer despropósito, mas não houve sequer mobilização nas secretarias estaduais e municipais de saúde no sentido de viabilizar equipamento de proteção individual (EPI) para oferecer a essas famílias, flagrando total insciência acerca das especificidades e demandas desse segmento da nossa sociedade,que representa nada menos de 14% da população brasileira. É imprescindível esclarecer que, como muitos idosos são dependentes de cuidados dos familiares 24 horas diárias, inúmeras crianças, jovens e adultos com deficiência e dependência severa necessitam de dedicação cuidados similares, sem os quais não sobreviveriam. Como o Plano de Contingência Nacional para Infecção Humana pela Pandemia recomenda que pessoas que desenvolvem as formas menos graves da doença sejam mantidas em isolamento domiciliar, cuidadas por seus familiares, sob sistemática avaliação das equipes da Atenção Básica de Saúde, não é razoável aceitar que seus desdobramentos não tenham contemplado suprimento de EPI para seus cuidadores.
É inaceitável que equipes inteiras do Programa Estratégia Saúde da Família (ESF) não tenham recebido treinamento adequado para atender demandas dessa natureza.Indiscutível também do ponto de vista organizacional da gestão pública em saúde, que cabe às equipes do ESF a responsabilidade do diagnóstico, intervenções e cuidados de pequena complexidade das pessoas que residem em sua área de abrangência geográfica. Nesse sentido, também óbvias se descortinam suas responsabilidades na identificação e triagem das pessoas infectadas pelo novo coronavírus na comunidade, orientando familiares sobre formas de cuidar dos seus entes durante o isolamento domiciliar, bem como do encaminhamento para unidades hospitalares dos casos que apresentarem quadros e sintomas mais graves da doença. O que fundamenta a não disponibilização de EPI para assegurar que as famílias dessas pessoas não se contaminem a partir dos seus cuidadores principais, além da falta de seriedade e responsabilidade inerentes ao cargo ou função exercida no serviço público de saúde?
Não há como se calar vis-à-vis tamanha discriminação, tampouco proceder complacente com as desculpas elencadas pelos ocupantes de cargos do alto escalão na gestão pública de saúde, tendo em vista vidas e muito sofrimento que poderiam ser poupados, não fosse o obtuso conhecimento sobre a diversidade que caracteriza as necessidades de cuidados e assistência à saúde da população das nossas cidades. Diversidade que se evidenciou incognoscível à percepção e planos de ação dos nossos gestores públicos, lamentavelmente.

Por Dr. Willian Machado