Das emperradas filas para cirurgias eletivas no SUS às gastanças no planalto central

Sábado, 04 de Agosto de 2018.

Fica cada vez mais difícil a situação das centenas de milhares de pessoas que aguardam chamada para cirurgias eletivas no SUS. Há quem esteja amargando dor, sofrimento, frustração e desesperança muito mais tempo que o humanamente suportável. Passam 4, 5. 6, e até 10 anos aguardando em filas informais criadas pelos gestores das prefeituras Brasil afora, somados aos que permanecem estáticos nas filas criadas pelos seus pares estaduais da saúde nesse nosso país desgovernado. Em 2017, o Ministério da Saúde, em uma ação conjunta com estados e municípios, adotou o modelo de fila única para cirurgias eletivas em todo país, instituído para acelerar o atendimento do cidadão e reduzir o tempo de espera pelo procedimento hospitalar. Pena que não funcionou por razões políticas, como nas demais áreas.Influências negativas de legendas partidárias queatrapalham a organização operacional de setores prioritários com suasindicações de apadrinhados para exercer cargos técnicos que requerem conhecimentos específicos. Leigos ou mal-intencionados para com a aplicação e destinação das verbas que deveriam atender/suprir demandas de saúde da população, acabam desviando-as para fins diversos e destoantes dos seus propósitos originais.
Hoje, raros entre brasileiros são cidadãos que não conheçam quem esteja esperando chamada para ser submetido a algum tipo de procedimento cirúrgico eletivo. Parentes, amigos, alguns conhecidos, todos temos contato com exemplos que nos assustam. Compartilhamos do estresse causado pela angustiante espera do ter resolvido problema de saúde que impede essas pessoas de levar uma vida com saúde física, mental, emocional, bem-estar e satisfação de viver.
As três cirurgias que mais se destacam na fila única do SUS são as do aparelho digestivo, órgãos anexos e parede abdominal, aparelho da visão e aparelho geniturinário. Além dessas, também figuram com destaque na lista pequenas cirurgias, cirurgias de pele, tecido subcutâneo e mucosa, das glândulas endócrinas, do sistema nervoso central e periférico, das vias aéreas superiores, da face, cabeça e pescoço, cirurgias oftalmológicas e oncológicas, do aparelho circulatório e do aparelho osteomuscular. Tantos contribuintesda máquina pública, brasileiros que direta ou indiretamente pagamseus impostos, enchem os cofres do governoe são humilhados peladesatenção de necessidade tão vital como fazer uma cirurgia eletiva. Gente forte que embora sofrida acredita que nosso país tem jeito, mesmo abandonada nos bancos de espera dos ambulatórios nos hospitais públicos, recebendo todo tipo de maus tratos, negligências, desrespeito, privações do direito à saúde garantido pela Constituição Brasileira.
Eu mesmo, tento ajudar senhora de 63 anos, que permanece em fila de cirurgia eletiva tipo hemorroidectomia, há quatro anos, sem obter sucesso. Nem mesmo me servindo de argumentação técnica de que a paciente apresenta episódios hemorrágicos frequentes, dores insuportáveis, desconforto, consigo sensibilizar quem de competência para que sua cirurgia seja autorizada. Pouco adiantou solicitar ajuda de influentes personagens do legislativo e executivo municipais para agilizar o agendamento cirúrgico. Na verdade, as filas ficam cada vez maiores e menores as possibilidades de resolução da demanda. Entendo que o problema das filas é nacional devido aos cortes no financiamento público da saúde em nível ministerial, todavia incompreensível se mostra a acomodação dos gestores públicos que exercem de mandatos no legislativo e executivo das esferas municipal e estadual, cujo papel deveria ser o de cobrar dos seus pares das esferas superiores e não o fazem.
Com efeito, temos consciência de que não se trata de falta de dinheiro, mas da corrupção sistêmica instaurada no setor saúde. Nada justifica a imensa fila para cirurgias eletivas do SUS, bem como do caos vivido nos hospitais e serviços públicos de saúde brasileiros, exceto a distorção do que de fato é prioritário na designação das verbas públicas em Brasília. Exemplo revoltante dessa distorção está na destinação de aproximadamente R$ 1,7 bilhão para o Fundo Especial de Financiamento de Campanha, montanha de dinheiro do contribuinte para ser distribuído aos 35 partidos com registro no TSE para pagamento de despesas nas eleições de 2018. Fundo que de “Especial” servirá apenas para manter longe de alcance da justiça inúmeros corruptos, raposas da velha política, lideranças partidárias com vasta lista de denúncias por desvio de verbas e ilícitos diversos. Enquanto isso, muitas pessoas morrem por falta de atendimento nos serviços de urgência e emergência hospitalar, como dona Irene de Jesus, de 54 anos, dia 28 de julho, no Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro. Mais um registro que não dará em nada além da indignação pública e do sofrimento da família da vítima. A médica que estava desatenta ao que se passava com a paciente provavelmente apresentará defesa e será inocentada, os gestores estaduais se apoiarão num batalhão de advogados e também não responderão pelo ocorrido, enfim, tudo continuará como dantes na ineficiente administração pública da saúde. Quando o sistema democrático não se coaduna com as expectativas da sociedade, cabe aos eleitores a tomada de medidas cabíveis para mudar os atores políticos que os representam no legislativo.

Por Dr. Willian Machado

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