Derrota do Brasil e Racismo contra Fernandinho: pior que 7x1

Sexta, 13 de Julho de 2018.

A derrota da seleção brasileira de futebol para seleção belga em 06 de julho de 2018 na Copa do Mundo de futebol na Rússia por 2x1 nas quartas de finais revelou um lado do país que teimamos em não enfrentar: a persistência do racismo. Não é novidade a asquerosa presença dos eventos racistas nos campos de futebol brasileiros e mundiais. Como todos sabem, um dos gols da Bélgica foi gol contra do jogador Fernandinho, após uma cobrança de escanteio.
Todos já ouvimos falar na expressa “Pátria de Chuteiras” para nos referirmos a seleção brasileira de futebol. Essa expressão foi cunhada pelo jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980) em uma coluna no Jornal O Globo em 1976. Exatamente perguntava:
para nós, o que é o escrete? Digamos: é a pátria em calções e chuteiras, a dar rútilas botinadas em todas as direções. O escrete representa os nossos defeitos e as nossas virtudes.

Essa citação de Nelson Rodrigues foi obtida no livro “Brasil no Campo de Futebol: estudos antropológicos sobre os significados do futebol brasileiro” da professora da UFF Simone Lahud Guedes (Editora da UFF, 1998). Podemos indicar que o time de futebol da seleção brasileira acaba projetando um pouco da condição do povo brasileiro. Tanto no sentido positivo (“nossas virtudes”) como também no sentido negativo (“nossos defeitos”), o futebol da seleção teria o poder de revelar diversos elementos acerca de nossa formação social. A “Pátria de chuteiras” demandaria dos jogadores e comissão técnica uma perfeição quase sobrehumana. Perder não é aceitável. Exigem-se vilões e heróis. Lembremos das derrotas brasileiras em copas. Todas elas possuem vilões- quase sempre injustamente, uma vez que partidas de futebol de 90 ou 120 minutos não são definidas em uma única bola. De Cerezo em 1982, Zico em 1986, Dunga em 1990, Piripaque de Ronaldo Fenômeno em 1998, negligência de Roberto Carlos em 2006, Felipe Melo e Dunga em 2010, o conjunto da obra em 2014 no 7x1, e agora Fernandinho em 2018. Como se não fosse possível o Brasil perder apenas porque numa partida de futebol uns vencem e outros perdem. Assim, as derrotas são partes inseparáveis do esporte, com consequências apenas e tão somente dentro dos campos, quadras, pistas, piscinas, tatames e etc..
Esse nacionalismo tacanho e vulgar pode dar margens a condutas problemáticas, perigosas e facilmente manipuladas. A transformação do time de futebol da seleção em “Brasil” e dos jogadores do time em “brasileiros” busca indicar que ali estaria o “povo” brasileiro. Mesmo que “povo brasileiro” seja um termo absolutamente abstrato. Quem seria o “povo brasileiro”? Desde o bilionário que assiste o jogo em jatinhos ou iates até os mais pobres dos brasileiros que vivem unicamente de programas de renda mínima e trabalhos temporários precários (bicos). Todos esses seriam o povo brasileiro representado pela seleção?
Não por acaso, Simone Lahud Guedes afirma que “as vitórias e derrotas do selecionado contaminam e são contaminadas pelas representações sobre o Brasil e os brasileiros, gerando incontáveis avaliações sobre sua força e fraqueza, vigor e mazelas, riqueza e pobreza” (p. 44).
Por isso, os comentários racistas sofridos não apenas pelo jogador Fernandinho, mas todo e qualquer trabalhador (a) negro (a) brasileira que pode cometer um erro- e ainda não há clareza que lance de gol belga tenha sido erro de Fernandinho- e sofrer ataques asquerosos racistas. O jogador precisou desativar a opção de comentários em suas redes sociais. Deveria processar cada um daqueles racistas asquerosos. Esses racistas precisam aprender que não há lugar para vocês numa sociedade civilizada.

Marcelo Paula de Melo é doutor em Serviço Social (UFRJ) e professor da EEFD-UFRJ

Por Marcelo Melo

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