Ditaduras e Desaparecimentos: viva à luta das mulheres

Sexta, 09 de Março de 2018.

Na rememoração dos 54 anos do golpe civil militar ocorrido no Brasil- escrevendo essa coluna no dia Internacional de luta das mulheres por igualdade e de combate às diversas formas de violência- vamos destacar as ações das MÃES e AVÓS DA PRAÇA DE MAIO (praça em frente ao Palácio Presidencial argentino- CASA ROSADA- na capital Buenos Aires). Eram mulheres que buscavam seus filhos e filhas desaparecidas pela ditadura argentina. Algumas mulheres foram seqüestradas grávidas ou com crianças de colo, as mães iniciaram a busca também por seus netos.

Muitas crianças foram dadas para militares argentinos e\ou conhecidos desses e foram criadas como adotivos ou filhos legítimos dessas pessoas- as vezes em estados (províncias na Argentina) longe do local de nascimento ou onde viviam seus pais. Algumas dessas pessoas que receberam crianças tinham plena consciência disso. Em outros casos não! Estamos falando de pessoas nascidas entre 1976 e 1983 em toda a Argentina que foram criadas por famílias que não as suas, sem saberem disso. Muitas crianças nasceram nos centros clandestinos de tortura espalhados por toda Argentina. O mais famoso deles foi a ESCOLA de Mecânica da Armada (ESMA), localizada em Buenos Aires a cerca de 2 quilômetros do Estádio Monumental de Nunez, do famoso clube de futebol RIVER PLATE. Hoje virou um museu chamado ESPAÇO MEMÓRIA E DIREITOS HUMANOS (http://www.espaciomemoria.ar/ portugues.php).

Por isso, as MÃES e AVÓS da PRAÇA DE MAIO promovem toda semana –sempre as quintas feiras- encontros na Praça para cobrar dos governos – seja quem estiver ocupando à Presidência- a responsabilidade por achar seus filhos e netos. Sempre com seus lenços brancos encobrindo a cabeça, las madres e abuelas (avós) conversam entre si e com pessoas sobre seus filhos e netos desaparecidos.
Atualmente 127 netos foram recuperados. Ou seja, homens e mulheres que descobriram que são filhos de pessoas assassinadas pela ditadura e que foram criados por outras pessoas. Geralmente inicia a partir de uma desconfiança em relação a sua origem e identidade. Seja por histórias nebulosas em relação à sua infância, ou por não possuir nenhum traço com qualquer parente, muitas pessoas iniciaram esses processos. Também existiram casos de pais e mães adotivos que confessaram no leito de morte que não eram pais legítimos. Não suportaram levar para túmulo uma verdade tão pesada.
As madres e Abuelas da Praça de Maio possuem um bando DNA das pessoas desaparecidas para poder averiguar casos de pessoas que suspeitam serem filhos de desaparecidos.



Crédito foto: Abuelas de La Plaza de mayo

Como diz a linda canção do Chico Buarque em homenagem a Zuzu Angel (que não pode enterrar seu filho Stuart Angel, pois seu corpo não foi devolvido) e as todas as mulheres que perderam seus filhos torturados para as ditaduras:
Quem é essa mulher\ Que canta sempre esse estribilho\ Só queria embalar meu filho\ Que mora na escuridão do mar\ Quem é essa mulher\ Que canta sempre esse lamento\ Só queria lembrar o tormento\ Que fez o meu filho suspirar\ Quem é essa mulher\ Que canta sempre o mesmo arranjo\ Só queria agasalhar meu anjo e deixar seu corpo descansar
SERÁ QUE ESSE PROCESSO OCORREU SOMENTE NA ARGENTINA?

Marcelo Paula de Melo é doutor em Serviço Social (UFRJ) e professor da EEFD-UFRJ.

Por Marcelo Melo

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