Driblando complexos

Sábado, 28 de Julho de 2018.

Em 1950, Nelson Rodrigues celebrizou o termo “complexo de vira-latas”, ao referir-se à reação pela derrota nacional sofrida na Copa do Mundo daquele ano, em casa, jogando contra o Uruguai. O fato, no entanto, como disse o próprio, não se limitaria ao futebol. Tratava-se de um típico sentimento de inferioridade, em que o brasileiro se colocava ante determinadas culturas.
Seis décadas depois, e eis que o tal sentimento, arraigado, conservou-se, cresceu e segue sendo cultivado. Quer saber como? Basta zapear pelas redes sociais. Ou esquadrinhar comentários de sites e jornais, em que os exaltados mais inflamados (anônimos ou não) bradam aos quatro ventos que isso ou aquilo só acontece por aqui: politicagem, ignorância, violência, assalto, permissividade, música ruim... tudo nosso. ‘Ai, que bom – dizem alguns – que não moro mais nesse lugar!’ E o clássico ‘Vou embora do Brasil’. Entre outras pérolas.
Indignação à parte – e temos, naturalmente, o direito de opinar sobre os conflitos endêmicos de nossa pátria – a questão é: mas e quanto aos deveres que nos são inerentes? Sim, aqueles mesmos explicitados na carta magna, que nos nivela, a todos, perante a lei?
Reclamar do que vai mal? De acordo. A corrupção, que nunca esteve tão em pauta, por exemplo: um absurdo, vá lá! Entretanto, os representantes que elegemos não vieram de outro planeta. Nem estão além-fronteiras. São gente da gente. Gente como a gente.
E isso quer dizer que... Opa! Lá vem clichê: se aspiro a uma administração pública honesta e eficaz, devo começar a idealizá-la por mim. Pelas minhas atitudes e relações. Sem mágica, principiando pelo básico.
Do mesmo modo, se desejo a paz, a civilidade e a tolerância, devo trabalhar por minimizar as imperfeições e seguir espelhando, através de minha conduta, o respeito ao próximo, a suas dores e dificuldades; a suas escolhas de vida; exercitar diariamente, em suma, a compreensão e a empatia.
Problemas há em qualquer lugar. Ignoremos, portanto, as críticas vazias e o ufanismo ás avessas de soluções mirabolantes e insanas, como a criação de um país no sul, ou na zona sul. Ataquemos de frente os reveses. Com argumentos plausíveis e saídas adequadas, sejam elas de curto, médio ou longo prazo.
E não deixemos, claro, de valorizar o que é nosso. As características de nosso povo; a diversidade e os talentos endógenos. Não apenas na vitória, que acreditem, nem é o mais importante. Mas igualmente no esforço da caminhada. Na fundamental e valiosa tarefa de driblar complexos, reconhecendo e celebrando o que é bom. De fazer nascer, de nossas qualidades, aquela autoestima tão necessária. De crer que somos capazes – e de fato nos capacitarmos para aquilo que almejamos. De entender que os obstáculos, quais forem, só serão transpostos com justiça, educação, equilíbrio, persistência... e confiança. Depende exclusivamente de nós.
#Bomfimdesemana!

Por Daniele Barizon

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