Epidemia

Terça, 12 de Novembro de 2019.

Epidemia

Todo o mundo sabe que o Flamengo tem a maior torcida do país. Porém, de uns meses para cá, explodiu no meio da sociedade uma epidemia do Abola. Um vírus que provoca o aumento da paixão rubro-negra e a falência dos outros clubes. Levá-los ao mesmo caminho do América, do São Caetano e até o Íbis. Tão avassalador, será capaz de envelhecer até o Juventude.
Acredita-se que o vírus foi transmitido após a chegada de Bruno Henrique e Gabigol. E com o aval, acreditem, de Jesus. Ontem, não dei um passo pelas ruas, shoppings, ensaio do GRES Bom das Bocas sem esbarrar num torcedor infectado. Todos carregavam, com orgulho, no corpo uma marca: bs2. Desde que levantou, com todos os méritos, sua bandeira de Mello da competência administrativa, está difícil derrotar o Flamengo.
Se nós, tricolores, vascaínos e botafoguenses não reagirmos, vamos ver o clássico dos milhões passar a ter apenas centavos de um lado. O Fla x Flu perder sua magia, ser muito mais Fla do que Flu, e a estrela solitária reunir ainda mais solitários do outro lado da arquibancada. Uma pena.
Tentei fazer a minha parte. Dei a vacina, uma linda camisa tricolor no nascedouro para meus quatro filhos. Todos voltaram infectados da escola, foram picados nos pátios, salas e corredores onde o deboche e a ironia de uma queda para segunda divisão os expuseram ao vírus. O Guilherme quase escapou. Virou Botafogo.
Meu genro foi mais precavido. Desde que meus netos nasceram tem passado protetor Raid Tricolor na hora das refeições - e se não passam não comem. Mesmo assim a Luisa, que come pouco, se agarrou na saia rubro-negra da mãe. E virou Flamengo.
Em 1999 assisti, com o Guilherme, então com 12 anos, a final da Copa do Brasil entre o seu Botafogo e o Juventude. Foi inesquecível porque não teve graça nenhuma. Desde a Praça da Bandeira, onde historicamente o engarrafamento dá luz às provocações, só encontramos acenos e saudações. Só tinha botafoguense por todos os lados.
E sem a rivalidade, sem a oposição, o contraponto, cresce a arrogância. A soberba. E o 0x0 dando o título ao Juventude foi o reflexo desta falta de pessoas nas arenas e botecos que pensam, votam e torcem diferente da gente.
Mas não podemos deixar o vírus contaminar todo mundo. A saúde competitiva do futebol brasileiro se tornar um Barcelona x Real Madrid, Boca x River, Juventus x Milan. Somos diferentes e jogamos diferentes porque somos democraticamente miscigenados. E não haverá uma ditadura maior no esporte do que rever aquele triste slogan do regime ditatorial dominar outra nação: “Flamengo, Ame-o ou Deixe-o”.
Bem, mesmo lutando para não cair, vou passar a sair com a camisa do Fluminense pelas ruas. Acho que os vascaínos e botafoguenses deveriam fazer o mesmo. Precisamos propagar aos quatro ventos que “Torço, logo existo!”. Para não sumir. Começou com o boto cor-de-rosa, depois veio o Mico Leão Dourado, mas não vamos permitir que nossos times entrem na lista dos clubes em extinção. Ou vamos?

Por José Roberto Lopes Padilha

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