Ética e conveniência na sociedade brasileira contemporânea

Sábado, 18 de Agosto de 2018.

Como nunca visto, hoje, muitos vivem intensas disputas por territórios cada vez maiores, ainda que transitórios, mas suficientes para acomodar suas imediatas conquistas e ambições pessoais, profissionais, políticas e sociais. Frequentemente, sem se dar conta de que umameteórica ascensão material pode prejudicar diversas pessoas que vivem próximas ou distantes. Prejuízos aos mais próximos sempre os fazem colocar o pé no freio, mas passados efeitos aparentes do estrago logo retomam ao vicioso hábito de agir sem escrúpulos. Já o desastre causado aos demais sem vínculos parentais, definitivamente, não os sensibilizam porque não compreendem que a sociedade é um só organismo e o que compromete suas partes mais distantes do núcleo, cedo ou tarde, acaba se manifestando no todo.
Quando se tem poder e habilidade de sedução das pessoas verbalizando o que elas gostariam de ouvir, o ser humano em qualquer área que atue dispõe de força persuasiva sem limites, a depender de quem o ouça. Osingênuos, mais fáceis presas, mesmo escolarizados, mostram-se inebriados pela aparente coerência domaldoso jogo simbólico que os está a fascinar,sucumbem nocauteadospeladoutrinação e incapacidadecrítico-reflexiva. Essa tem sidotambém a cilada armada para emboscar pessoas de baixa renda e nível escolar elementar, tornando-as facilmente moldáveis como massa de manobra,disponíveise a serviço das oligarquias políticas que parasitam do Brasil, desde o período colonial.
O eminente antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin, em sua obra “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, afirma que a ética não poderia ser ensinada por meio de lições de moral. Deve formar-se nas mentes como base na consciência de que o humano é, ao mesmo tempo, indivíduo, parte da sociedade, parte da espécie. Carregamos em nós esta tripla realidade. Desse modo, todo desenvolvimento verdadeiramente humano deve compreender o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e da consciência de pertencer à espécie humana.
Nessa mesma linha de raciocínio, o neurobiólogo chileno Humberto Maturana, em seu livro “Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano do patriarcado à democracia”, considera que somos seres emocionais como todos os mamíferos e que, por existirmos na linguagem e no conversar, usamos a razão para ocultar ou justificar nossos desejos. Tudo o que fazemos surge em nosso ser racional, porque o racional consiste em operar nas coerências do linguajear. Somos membros da mesma rede de conversações, da mesma cultura – e vivemos imersos na mesma rede de noções fundamentais que orientam nosso fazer e pensar como verdades evidentes – nunca vivemos discrepâncias racionais; apenas desacordos emocionais ou meros erros lógicos. Geramos miséria ao nosso redor, movidos pelo desejo de um enriquecimento ilimitado pela apropriação de tudo a qualquer custo, sob o argumento de que a livre concorrência é um direito.
Pensamentos que nos levam, como cristãos, às reflexões do Dalai Lama quando ele diz que o objetivo da prática espiritual e, consequentemente, da prática ética é transformar e aperfeiçoar o estado do coração e da mente (kunlong, que podemos traduzir por ‘atitude fundamental’). É assim que nos tornaremos pessoas melhores. Cidadãos que se comportam cuidadosamente pautados em princípios éticos, das pequenas as grandes questões da vida. Pessoas abertas ao agir conforme o que se inspira o coração, que não se deixam levar por suas más inclinações, uma vez humanos e grandes alvos da ambição.
Nesse aspecto, vale ressaltar que conduta ética é similar a uma estrada de apenas uma mão, um só sentido a prosseguir. A dimensão ética é marcada pela escuta e a transformação queesta nos provoca, possibilitando outros modos de ser,conectados com a afirmação da vida como multiplicidade e abertura.Devemos ser éticos para conquistar o direito de questionar condutas antiéticas. Ao contrário, que sentido existe no tecer críticas ou ficar desiludidos com a classe política brasileira, maldizendo seus deslizes no âmbito da ilicitude? Quando, no dia a dia, tentamos subornar agentes públicos para nos favorecer; damos sempre um jeitinho de adulterar medidores de água e luz para pagar menos que consumimos; nos silenciamos ao receber troco a mais dos caixas nos estabelecimentos comerciais; entre outros atos também antiéticos.
Devemos assumir sem máscaras que nossos políticos com mandatos foram eleitos por nós mesmos, e, que, maioria, reproduz parte do conjunto da sociedade, tanto nas formas pensar quanto nas de agir. Nosso maior desafio deve ser o de lutar para nos transformar em pessoas melhores, cada um de nós, o que impreterivelmente se refletirá no todo, inclusive, naqueles que elegemos para assumir a guiança dessa Nação.

Por Dr. Willian Machado

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