Fake news, notícias falsas e eleições: as máquinas e aplicativos de curtidas, compartilhamentos e comentários

Sexta, 11 de Maio de 2018.

Pedindo permissão para adentrar na seara da colega Daniele Barizon (tecnologia), sigo minhas reflexões sobre tecnologia, redes sociais e política. Todas as pessoas que se relacionam com redes sociais (facebook, instagram, Twitter e etc) sabem que seu funcionamento depende diretamente da interação com outras pessoas. Quando escrevemos um texto, publicamos uma foto ou compartilhamos qualquer conteúdo temos a esperança que as pessoas vejam, reajam (curtindo, amando, ficando triste dentre outras possibilidades) e, sobretudo, comentem nossas publicações. É assim que funciona a dinâmica das redes sociais. É como uma regra que não está escrita, mas que todos brevemente aprendem.
Quando vemos uma página ou perfil com muitos seguidores, milhares (ou milhões de curtidas), fotos com muitos comentários imaginamos que essa pessoa seja famosa ou que suas ações despertem muita atenção. É comum menção que determinado artista, político ou youtuber tem milhões de seguidores no twitter ou que determinado conteúdo foi compartilhado milhares de vezes.
Mas a realidade pode ser outra integralmente diversa. CUIDADO! Podemos estar diante de uma nova forma de farsa. As máquinas, robôs e aplicativos que produzem de maneiras falsas curtidas, comentários e compartilhamentos. Não falsas curtidas, mas falsos comentários e compartilhamentos. Intencionalmente com vistas a polemizar e criar embates com pessoas reais. No tocante ao debate político esse é um campo ainda mais problemático. São serviços pagos para influenciarem intencionalmente a opinião pública em larguíssima escala. Os chamados perfis falsos podem ser máquinas a programadas a responder com mesmo padrão de respostas.
O leitor deve estar se perguntando o que levaria alguém a inflar sua popularidade nas redes sociais! Muito simples: quanto mais compartilhamentos e curtidas mais alcance tem determinada idéia. Perfis populares viajam pela linha do tempo de diversas pessoas mesmo sem relação com aquele perfil. Quem nunca recebeu a “visita” de um perfil patrocinado no facebook em sua página? Isso ocorre porque aquele perfil pagou ao facebook para que seja impulsionado.
A reportagem de Igor Mello, publicada no jornal O Globo (sábado, 31-03-2018, p. 9), foi reveladora dessa forma de atuação. Seu título foi: “APP que multiplica conteúdo cria risco de ‘guerra suja’ nas eleições”. Nessa reportagem, especialistas em tecnologia consultados alertam que existe um risco real desses mecanismos serem usados em larga escala para influenciarem eleições. Isso já teria ocorrido em diversos países, inclusive na polêmica eleição de Donald Trump nos EUA em 2016. Para tal, mencionam a utilização de um aplicativo chamado VOXER, que replica (e multiplica o alcance dos seus posts) seus conteúdos postados nos perfis de usuários. A reportagem também afirma que Movimento Brasil Livre (MBL) é usuário contumaz e frequente do VOXER. Tanto que esse aplicativo foi banido pelo facebook após a reportagem mencionada. Segundo professor Dr. Fabricio Benevenuto (UFMG), esses aplicativos representam um risco real de compartilhamento de notícias indevidas. Existem para influenciar determinadas visões de mundo. Para Benevenuto, “até então, a gente via o uso de bots (robôs). Esse aplicativo escraviza usuários do facebook e os usa para fazer postagens para eles”. Sabem aquele perfil polemizador de facebook? Aquele com respostas agressivas que não tem uma foto de perfil? Nenhum amigo em comum? Muita chance de ser um robô de perfil fake.
Alguns candidatos às eleições em 2016 já admitiram terem contratado a empresa LETS ROCKET, que atua com o VOXER (visível na prestação de contas dessas campanhas). Objetivo era impulsionar a imagem com visões favoráveis. Estamos diante de um imenso esforço. Crer que isso não impactará as eleições é ser ingênuo. Vimos diversos exemplos concretos. É preciso estar atento e forte!

Marcelo Paula de Melo é doutor em Serviço Social (UFRJ) e professor da EEFD-UFRJ.

Por Marcelo Melo

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